Aquisição bilionária em terras raras recoloca o Brasil no mapa estratégico, mas não resolve sua maior fragilidade industrial
Compra da Serra Verde pela americana USA Rare Earth expõe a distância entre ter minério e capturar valor na cadeia de ímãs, defesa, energia e tecnologia

A compra da mineradora brasileira Serra Verde pela americana USA Rare Earth por cerca de US$ 2,8 bilhões, anunciada em 20 de abril, recolocou o Brasil no centro da disputa global por terras raras. O negócio envolve a mina e a planta de processamento Pela Ema, em Goiás, e foi fechado em um momento em que Estados Unidos, Europa e aliados tentam reduzir a dependência da China em minerais críticos para a indústria, a defesa e a transição energética. A operação prevê US$ 300 milhões em dinheiro, emissão de 126,849 milhões de novas ações e fechamento esperado para o terceiro trimestre de 2026.
O ponto que fez o mercado olhar para o ativo brasileiro com tanta atenção é sua raridade geológica e estratégica. A Serra Verde é apontada como o único produtor em escala fora da Ásia capaz de fornecer os quatro principais elementos magnéticos de terras raras: neodímio, praseodímio, disprósio e térbio. A expectativa divulgada pela compradora é que a produção da operação represente mais de 50% da oferta de terras raras pesadas fora da China até 2027, quando a primeira fase deverá atingir capacidade nominal de cerca de 6,4 mil toneladas por ano de óxidos totais de terras raras.
À primeira vista, o negócio parece reposicionar o Brasil como peça central em uma cadeia global altamente concentrada. E de fato reposiciona. O problema é que isso não significa, automaticamente, ganho industrial relevante para o país. Segundo a USGS, a produção mundial de terras raras foi estimada em 390 mil toneladas em 2025. Já a China segue dominante no elo mais sensível da cadeia: responde por cerca de 90% da produção global processada, mantendo influência decisiva sobre preços, disponibilidade e ritmo de suprimento.
Esse domínio chinês ganhou ainda mais peso depois que Pequim anunciou, em abril de 2025, restrições à exportação de terras raras em resposta à escalada tarifária com os Estados Unidos. A medida atingiu justamente materiais usados em armamentos, eletrônicos, motores, geração de energia e bens industriais. Em paralelo, a própria Reuters destacou que a China fornece cerca de 90% dos ímãs de terras raras do mundo, o que mostra que o verdadeiro poder não está apenas em extrair minério, mas em processar, transformar e fabricar componentes de alto valor agregado.
É nesse ponto que entra a leitura mais criteriosa de Rodolfo Midea, CEO da Fácil Negócio Importação, empresa que atua diretamente com a cadeia de ímãs de neodímio. Para ele, a aquisição não deve ser lida como um simples avanço para o Brasil, mas como parte de uma reorganização geopolítica liderada por potências que querem montar cadeias alternativas à China. “O fato de o ativo estar no Brasil não significa que o valor vai ficar no Brasil. O que esse negócio mostra é que o país continua estratégico como origem do recurso, mas ainda periférico na etapa mais rentável, que é a industrialização”, afirma.

A avaliação faz sentido quando se observa o desenho da transação. A USA Rare Earth vem montando uma plataforma verticalizada fora da China, somando mina, processamento e fabricação. Em menos de um ano, a companhia adicionou a britânica Less Common Metals, participação na francesa Carester, sua planta de ímãs em Stillwater, Oklahoma, e agora a Serra Verde. Em janeiro, a empresa fechou um pacote de financiamento de US$ 1,6 bilhão com apoio do governo americano; em fevereiro, a própria Serra Verde obteve um acordo de financiamento de US$ 565 milhões com Washington. A operação brasileira ainda ficará amparada por um contrato de offtake de 15 anos para 100% da produção da fase 1 de Nd, Pr, Dy e Tb, por meio de um veículo capitalizado por entidades do governo dos EUA e fontes privadas.
Na prática, isso reforça a tese de Rodolfo de que o Brasil pode até ganhar visibilidade, mas corre o risco de apenas trocar uma dependência concentrada na China por uma dependência distribuída entre novos polos de poder, sem construir soberania industrial. “Se o Brasil continuar entrando na cadeia apenas como dono do recurso mineral, vai seguir exposto às decisões de outros países sobre processamento, contratos, preços e destino final da produção. O centro da discussão não é só de quem é a mina. É de quem controla metal, liga, magneto e aplicação industrial”, diz.
O impacto dessa equação aparece diretamente no mercado de ímãs de neodímio, usado em motores elétricos, turbinas eólicas, automação industrial, eletrônicos, semicondutores e defesa. A própria IEA projeta que a demanda por elementos de terras raras, puxada principalmente por motores de veículos elétricos e turbinas eólicas, deve crescer três vezes no cenário STEPS e mais de sete vezes no cenário SDS até 2040. Só em energia eólica, a agência estima que a demanda por neodímio e praseodímio pode mais que triplicar até 2040.
Para uma empresa brasileira que importa ímãs e atende cadeias industriais dependentes desse insumo, a questão é menos abstrata do que parece. Mudanças no comando de ativos estratégicos, contratos de offtake amarrados a interesses estatais e disputa geopolítica sobre materiais críticos tendem a afetar preço, previsibilidade de fornecimento, poder de barganha e acesso prioritário. “Quem está na ponta sente primeiro. O Brasil hoje não tem escala industrial relevante em ímãs de neodímio para amortecer choques externos. Se muda a geopolítica do suprimento, muda custo, muda prazo e muda risco para a indústria brasileira”, resume Rodolfo.
Há ainda uma segunda camada de impacto. O negócio eleva o patamar de valuation dos projetos ocidentais de terras raras. A CNN Brasil registrou que o preço pago pela Serra Verde surpreendeu parte do mercado e foi interpretado como prêmio por três fatores raros reunidos no mesmo ativo: escala, relevância geopolítica e proteção comercial. Isso tende a atrair mais capital para projetos semelhantes, mas não garante que o Brasil capturará a etapa nobre da cadeia sem política industrial, processamento local e estratégia tecnológica.
No fim, a aquisição da Serra Verde é relevante justamente porque escancara uma contradição brasileira. O país tem geologia, escala potencial e agora voltou ao radar geopolítico das grandes potências. Mas continua sem presença robusta nos elos que realmente concentram margem, tecnologia e autonomia econômica. “A grande pergunta não é se o Brasil tem terras raras. Isso ele já provou que tem. A pergunta é se quer continuar exportando oportunidade e importando dependência”, diz Rodolfo.






