Valorização financeira e ambiental com edifícios net-zero: a próxima fronteira

por Patrícia Cavalcanti* vice-presidente de Digital Energy e Power Products da Schneider Electric
No setor imobiliário corporativo e de infraestrutura, o valor de um imóvel sempre esteve associado a duas variáveis fundamentais: localização e custo de construção. A agenda de sustentabilidade, quando entrava no planejamento, costumava ocupar um lugar secundário, muitas vezes percebida como um simples compromisso reputacional ou uma linha de despesa adicional. Contudo, essa fórmula perdeu a validade à medida que os vetores de risco e rentabilidade do mercado se reconfiguraram.
Volatilidade nas tarifas de energia, novas exigências de investidores e a busca por eficiência operacional transformaram a gestão energética na principal métrica de preservação de capital. Hoje, um edifício ineficiente representa um passivo financeiro. Ainda assim, há proprietários e gestores que continuam administrando seus ativos com premissas do passado, mensurando a tecnologia somente pelo custo imediato.
É justamente para mitigar esse gargalo que as estruturas net-zero emergiram como o novo padrão do setor. Tratam-se de empreendimentos projetados ou modernizados para maximizar o uso de recursos e gerar, por meio de fontes limpas locais ou integradas, uma quantidade de eletricidade equivalente à que consomem ao longo do ano. O resultado é um balanço neutro de emissões de carbono viabilizado pela fusão entre eletrificação, arquitetura preditiva e inteligência de dados.
A dimensão dessa renovação se reflete nos números do mercado. De acordo com o estudo Net-Zero Energy Buildings Market Size, Share, and Growth Forecast, da Persistence Market Research, os dados globais de edifícios net-zero devem saltar de US$ 55,9 bilhões em 2026 para US$ 198,1 bilhões até 2033. Esse avanço responde a uma mudança clara na matriz de atratividade: o relatório Sustainability is a Key Factor in Making Office Space Decisions, da CBRE, mostra que 55% dos ocupantes entrevistados afirmam que a certificação ambiental influencia tanto a decisão de ocupar um edifício quanto o valor que estariam dispostos a pagar pelo espaço. O documento também informa que 57% das empresas participantes possuem uma meta pública de emissões líquidas zero.
Segundo dados do Relatório de Status Global para Edifícios e Construção, produzido pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e pela Aliança Global para Edificações e Construção (GlobalABC), o segmento de edificações e construção é responsável por 37% das emissões globais de gases de efeito estufa e 28% do consumo de energia em todo o planeta. Para alinhar o setor às métricas de neutralidade, calcula-se a necessidade de US$ 5,9 trilhões em investimentos em eficiência energética até 2030. No entanto, a verdadeira virada de chave para os investidores reside no entendimento de que esse montante não é uma despesa a fundo perdido, mas a otimização drástica do OPEX (despesas operacionais).
Quando essa perspectiva evolui, a equação financeira se converte. Para ilustrar, o The Edge, em Amsterdã, na Holanda, considerado um dos escritórios mais sustentáveis do mundo, lida com uma carga energética cerca de 70% menor do que a de edifícios corporativos convencionais graças ao uso de milhares de sensores de internet das coisas (IoT). Já o retrofit do Empire State Building, em Nova York, nos Estados Unidos, reduziu o consumo de luz em 38% e contabilizou uma economia anual superior a US$ 4,4 milhões.
Outro bom exemplo é o IntenCity, edifício da Schneider Electric em Grenoble, na França. Com um consumo de apenas 37 kWh/m²/ano, valor aproximadamente dez vezes menor do que a média de prédios empresariais tradicionais na Europa, a estrutura opera com autossuficiência elétrica. Equipado com mais de 4.000 m² de painéis fotovoltaicos e turbinas eólicas, o espaço utiliza automação preditiva e microrredes para gerenciar a demanda em tempo real e compartilhar o excedente com o entorno.
O IntenCity e os demais projetos demonstram que alcançar o patamar net-zero superou o conceito teórico ou de exclusividade para novas construções. A combinação de sensores de IoT, softwares de monitoramento e eletrificação inteligente permite aplicar essa mesma lógica a imóveis existentes com o retrofit digital. Em vez de reformas estruturais complexas, a inteligência de dados atua eliminando desperdícios velados e calibrando o consumo no momento exato em que ele ocorre.
A transição para o modelo net-zero redefine a forma como os imóveis são avaliados, operados e preservados ao longo do tempo. A digitalização da infraestrutura energética diminui desperdícios, controla custos e amplia a capacidade de resposta diante de um ambiente marcado por tarifas mais voláteis, maior pressão regulatória e critérios cada vez mais rigorosos de investimento.
Em um mercado em que a eficiência passou a pautar diretamente o valor dos ativos, a tecnologia faz parte da própria estratégia patrimonial. O net-zero materializa essa guinada de lógica ao migrar de metas declaradas para resultados concretos, da intenção para a performance. É tanto uma salvaguarda às exigências ambientais quanto uma decisão que fortalece a rentabilidade, protege o patrimônio e prepara os empreendimentos para competir.
*Patrícia Cavalcanti é vice-presidente de Digital Energy e Power Products da Schneider Electric para a América do Sul

