Itamaraty busca diversificar comércio com países árabes
Relações Exteriores vê na agenda atual uma oportunidade para ampliar negócios e parcerias
A evolução do comércio entre Brasil e países árabes, hoje em US$ 31 bilhões nas vias de exportação e importação, depende de maior aproximação entre empresários, instituições e governos das duas regiões.
A avaliação é de Clélio Nivaldo Crippa Filho, diretor do Departamento de Oriente Médio do Ministério das Relações Exteriores, que falou nesta terça (15) a empresários reunidos no Fórum Econômico Brasil-Países Árabes, evento da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira, realizado na capital paulista.

“O nosso desafio comum é desenvolver possibilidades conjuntas por meio do fortalecimento dos laços entre empresários, instituições e governos”, disse o dirigente-diplomata. “Nesse contexto, almejamos resultados mais ambiciosos do ponto de vista não só quantitativo, mas também qualitativo, com diversificação da pauta”, seguiu Crippa Filho.
Segundo ele, a diversificação do comércio com o bloco pode ser alcançada começando pela atual pauta comercial, dada a grande complementaridade. Na relação comercial, o Brasil fornece prevalentemente alimentos aos árabes e obtém, na via inversa, fertilizantes essenciais à produção agrícola, hidrocarbonetos e derivados, havendo espaço para crescer em todos os segmentos.
Crippa Filho vê nos setores de alimentos, fertilizantes, energia, aeronaves, serviços e tecnologias as maiores possibilidades. Produtos desses setores já integram o comércio entre as regiões, mas poderiam ser ampliados, com a inclusão de mais itens de valor agregado, a partir da ação conjunta de governos e empresários.
O diplomata destacou que Brasil e países árabes mantêm um histórico sólido de relacionamento institucional, iniciado no tempo do Segundo Reinado. Atualmente, dos 22 países-membros da Liga Árabe, 18 têm representação diplomática no Brasil. O Brasil, por sua vez, tem embaixadas em 18 nações do bloco, igualmente.
O diretor do Itamaraty afirmou que o atual governo intensificou a agenda de relacionamento na região, promovendo visitas presidenciais aos Emirados Árabes Unidos, à Arábia Saudita, ao Catar, Egito e à sede da Liga dos Estados Árabes.
Na via inversa, o Brasil recebeu o presidente do Egito e o príncipe-herdeiro dos Emirados Árabes Unidos. Realizou também uma visita vice-presidencial à Arábia Saudita e cerca de 30 reuniões de primeiro e segundo escalões ministeriais com diversos países da Liga.
Outra iniciativa foi o respaldo do Brasil ao ingresso da Arábia Saudita, do Egito e dos Emirados Árabes Unidos no BRICS. “No comércio bilateral, existe um vasto potencial de aumento dos fluxos recíprocos entre o Brasil e os países árabes”, justificou.
Ainda na fala, Crippa Filho, sobre o conflito no Oriente Médio, afirmou que o Brasil tem insistido na negociação. Valorizou a postura de contenção adotada pelos países árabes em favor da estabilidade da região e clamou pela resolução da questão palestina.
“Compartilhamos também a inconformidade com a grave situação no território palestino ocupado, catastrófica no caso de Gaza, e preconizamos o urgente estabelecimento de um Estado palestino independente e viável nas fronteiras de 1967”, finalizou.
O Fórum Econômico Brasil-Países Árabes tem o patrocínio de FAMBRAS Halal e International Halal Academy, Vale, DP World, CDIAL Halal, First Abu Dhabi Bank, MBRF; Qatar Airways e MZAH Investment.
Confira a íntegra da fala de Clélio Nivaldo Crippa Filho
Senhoras e senhores,
É com grande satisfação que eu participo desta quinta edição do Fórum Econômico Brasil Países Árabes, sob o tema Economia Global em Transformação, Nova Agenda Brasil e Países Árabes. Agradeço o convite recebido da Câmara de Comércio Árabe e Brasileira para participar deste evento, que muito contribui para o fortalecimento dos vínculos entre o Brasil e o mundo árabe.
As tradicionais relações de amizade e colaboração do Brasil com os estados árabes, que são o ponto de partida para a contínua renovação de iniciativas conjuntas, que é o objeto deste evento, assentam-se em históricos vínculos humanos e interesses compartilhados. Há 150 anos, o imperador Dom Pedro II realizava a primeira visita de um governante brasileiro ao Oriente Médio. Esteve no Líbano, na Síria e na Terra Santa.
Poucos anos depois, começaram a chegar ao nosso país, em fluxo crescente, imigrantes levantinos, libaneses e sírios. Hoje, a vibrante diáspora árabe no Brasil, uma das maiores do mundo, enriquece a sociedade brasileira de maneira notável nos mais diversos campos, das artes à medicina, da política à ciência, da literatura ao comércio. Ao mesmo tempo, o Brasil cultiva sólidos vínculos institucionais com os países árabes, por meio de uma produtiva relação entre governos e também com a Liga dos Estados Árabes.
A presença diplomática árabe no Brasil é expressiva. Dos 22 Estados membros da Liga Árabe, 18 mantém embaixadas em Brasília. O Brasil, por sua vez, conta com representações em 18 capitais árabes.
Durante o atual governo, foi retomada uma intensa agenda presidencial para o Oriente Médio e o Norte da África, com visitas aos Emirados Árabes Unidos, à Arábia Saudita, ao Catar, ao Egito e à sede da Liga dos Estados Árabes. Nesse mesmo nível, também recebemos o presidente do Egito e o príncipe herdeiro dos Emirados Árabes Unidos no Brasil. Ao mesmo tempo, foi realizada uma visita vice-presidencial à Arábia Saudita, encontros presidenciais e cerca de 30 reuniões ministeriais e vice-ministeriais com países árabes diversos.
Na esfera da cooperação Sul-Sul, o Brasil respaldou, ainda em 2023, a decisão da expansão do BRICS, com ingresso no bloco da Arábia Saudita, do Egito e dos Emirados Árabes Unidos. No comércio bilateral, existe um vasto potencial de aumento dos fluxos recíprocos entre o Brasil e os países árabes. Para tanto, o intercâmbio em 2025, de 31 bilhões de dólares, segundo os nossos números, constitui uma base sólida.
Esse dinamismo reflete uma complementaridade de nossas economias. Em geral, o Brasil exporta produtos agropecuários e alimentícios aos países árabes, ao mesmo tempo que importa fertilizantes essenciais para a agricultura brasileira, assim como petróleo e derivados. Nesse contexto, almejamos resultados mais ambiciosos do ponto de vista não só quantitativo, mas também qualitativo, com diversificação da pauta.
Os setores de alimentação, fertilizantes, energia, aeronaves, serviços e tecnologias, abrem caminho para parcerias cada vez mais sofisticadas entre o Brasil e os países árabes. No campo dos investimentos, os fundos soberanos árabes mostram confiança no potencial da economia brasileira e ampliam sua presença no Brasil. De outra parte, empresas brasileiras realizam importantes inversões nos países árabes.
O nosso desafio comum é desenvolver possibilidades conjuntas por meio do fortalecimento dos laços entre empresários, instituições e governos. Nesse intuito, a Câmara de Comércio Árabe e Brasileira tem sido, por meio da promoção de visitas empresariais e fóruns de negócio, parceira-chave do governo brasileiro. Para além do seu compromisso com a prosperidade e o desenvolvimento recíprocos, o Brasil e o mundo árabe estão unidos por uma aspiração comum à paz e à justiça.
Na atual crise no Oriente Médio, agravada pelo conflito entre os Estados Unidos, Israel e o Irã, o Brasil aprecia a insistência no caminho da negociação e o expressivo papel de contenção exercidos pelo mundo árabe em favor da estabilidade regional. Compartilhamos também a inconformidade com a grave situação no território palestino ocupado, catastrófica no caso de Gaza, e preconizamos o urgente estabelecimento de um Estado palestino independente e viável nas fronteiras de 1967. Defendemos o direito internacional na condenação das reiteradas violações aos territórios do Líbano e da Síria, ao arrepio das resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas.
Nesse complexo cenário geopolítico, coincidimos na avaliação sobre os riscos da escalada de hostilidades e reafirmamos a defesa do diálogo e da diplomacia. Acreditamos que apenas soluções negociadas poderão criar um ambiente de segurança que abra caminho para o desenvolvimento e para a prosperidade regional. Senhoras e senhores, o mundo árabe ocupa um lugar de relevo na política externa e na agenda econômica do Brasil.
Nossos países atribuem mútua importância a seus elos históricos e à vitalidade de seu diálogo político. Temos afinidade de visões sobre o mundo refletida na convergência de propósitos e em uma atuação cooperativa e coordenada. Estamos comprometidos com o fortalecimento de agendas econômicas capazes de gerar crescimento, inovação e oportunidade para nossas sociedades.
Estou seguro de que o evento de hoje será bem-sucedido na exploração de novas avenidas para o fortalecimento do diálogo e da cooperação entre o Brasil e os países árabes. Muito obrigado. Shukran.
Clélio Nivaldo Crippa Filho






