El Niño no radar do agro: simulações digitais ajudam a prever desempenho de sementes e bioinsumos

El Niño no radar do agro: simulações digitais ajudam a prever desempenho de sementes e bioinsumos

Diante da maior variabilidade climática, empresas buscam identificar as condições em que seus produtos respondem melhor e ajustar o manejo.

El Niño no radar do agro: como simulações digitais ajudam a prever o desempenho de sementes e bioinsumos em anos de clima extremo

Quando o El Niño entra no radar, o agronegócio imediatamente começa a revisar riscos. Mas, para quem desenvolve sementes e bioinsumos, saber que um fenômeno climático pode alterar o regime de chuvas ou temperaturas é apenas o começo da decisão.

A questão prática é mais específica: como uma determinada semente, um inoculante ou outro produto biológico tende a se comportar em cada região, tipo de solo, época de plantio e fase da cultura? E o que fazer quando os dados disponíveis vêm de um número limitado de ensaios de campo, enquanto a realidade comercial abrange dezenas de ambientes possíveis?

É nesse espaço que ganham força os ensaios digitais de campo. A tecnologia usa dados de experimentos já realizados para simular a interação entre produto, ambiente e manejo em outros cenários. A proposta não é antecipar o clima nem substituir a validação física, mas ajudar empresas a decidir quais produtos avançar, identificar  condições onde o risco é maior, recomendar praticas de manejo para optimizar a performance dos cultivos.

“Um fenômeno como o El Niño muda o contexto, e é preciso então, entender como uma semente pode reagir a essa mudança de condições. Explorar todas as condições através de plantar centenas de ensaios físicos demoraria muito tempo, e seria economicamente inviável. Alí é onde a modelagem computacional vira uma ferramenta essencial para a tomada de decisões”, afirma Alejo Valverde Lyons, Chief Commercial Officer da Calice, agtech argentina especializada em modelagem computacional focado  no agronegócio. “Uma rede de ensaios digitais permite gerar milhões de cenários ambientais em segundos, e ajuda a transformar essa combinação de fatores em uma decisão mais estruturada.”

O limite da média

A lógica é particularmente relevante para o mercado de bioinsumos. Produtos biológicos podem apresentar respostas diferentes entre safras e regiões, mesmo quando aplicados sob protocolos semelhantes. Muitas vezes, essa variação é tratada como inconsistência. Mas ela pode revelar algo mais útil: que o produto funciona melhor em determinados contextos ambientais.

“Olhar apenas para a média pode esconder onde existe uma boa oportunidade de resposta e onde há maior chance de limitação. Para os biológicos, entender o contexto é tão importante quanto medir o resultado”, diz Valverde Lyons.

O mesmo vale para sementes. O desenvolvimento de uma nova variedade exige anos de testes em diferentes ambientes, mas não é possível reproduzir em uma rede de teste a campo toda a diversidade climática e agronômica que ela encontrará ao chegar ao mercado. Em vez de substituir esses experimentos, os modelos digitais podem indicar onde ampliar a validação, quais materiais merecem avançar e em quais regiões uma recomendação exige maior cautela.

Na Calice, esse trabalho parte da análise conjunta de produto, ambiente e manejo — interação conhecida como G×E×M. A empresa usa dados de ensaios do cliente para gerar cenários e mapas de probabilidade, considerando as interações complexas entre variáveis como clima, solo, manejo e o estágio de desenvolvimento da cultura em que esses eventos ocorrem.

“Não é a mesma coisa ter falta de água na germinação ou na floração. Quando o ambiente é analisado pela perspectiva da cultura, fica mais fácil entender por que o mesmo produto responde de formas diferentes”, afirma o executivo.

Da reação à preparação

A discussão ganha relevância em anos em que a variabilidade climática amplia a pressão sobre decisões de P&D e posicionamento comercial. Em vez de reagir depois de uma safra atípica, empresas podem usar os dados já acumulados para testar hipóteses, comparar ambientes e definir prioridades antes de investir em novas rodadas de experimentação.

O resultado não é uma garantia de performance. Trata-se de uma leitura probabilística, que aponta condições mais ou menos favoráveis e ajuda a reduzir incertezas em decisões que tradicionalmente demandam tempo, recursos e várias safras.

“Num cenário em que a variabilidade climática deixa de ser exceção, o diferencial não está em tentar eliminar a incerteza, mas em aprender a decidir melhor com ela. Quanto antes uma empresa entende os ambientes em que seu produto tem maior potencial — e aqueles em que precisa de mais validação —, mais consistente se torna sua estratégia de inovação e de chegada ao mercado”, conclui o executivo.

Sobre a Calice 

A Calice é uma agtech multinacional especializada em soluções de tecnologia para o agronegócio. Fundada em 2018, tem presença consolidada na Argentina e nos Estados Unidos. Entre seus clientes estão as principais empresas globais de desenvolvimento de sementes, produtos biológicos e P&D em proteção de cultivos.

 

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