Levedura desenvolvida na Unicamp pode aumentar eficiência na produção de etanol de milho

Levedura desenvolvida na Unicamp pode aumentar eficiência na produção de etanol de milho

Pesquisadores do Instituto de Biologia(IB) usaram bioinformática para identificar enzimas que podem aumentar a produção de etanol com a mesma quantidade de milho 

Com uso de bioinformática, pesquisadores do Instituto de Biologia (IB) encontraram enzimas para desenvolver nova levedura com potencial de aumentar a produção de etanol usando a mesma quantidade de milho

A produção de etanol de milho é um fenômeno recente no Brasil, mas essa indústria já responde por cerca de 30% da produção de etanol do país, que é um dos maiores produtores mundiais do biocombustível. Para acompanhar esse crescimento acelerado, pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) desenvolveram uma levedura geneticamente modificada capaz de aumentar a eficiência da fermentação do milho.

A invenção foi desenvolvida por pesquisadores do Laboratório de Genômica e bioEnergia do Instituto de Biologia (IB) da Universidade, e foi coordenada por Gonçalo Amarante Guimarães Pereira, docente do IB. A tecnologia foi protegida e licenciada para a empresa-filha da Unicamp, BIOINFOOD, por meio de estratégia da Agência de Inovação da Unicamp (Inova Unicamp), com interveniência da Fundação de Desenvolvimento da Unicamp (Funcamp).

O desafio da fermentação para etanol de milho

O etanol de milho surgiu como alternativa complementar ao etanol de cana-de-açúcar, uma vez que o milho oferece vantagens logísticas importantes. Diferentemente da cana, que precisa ser processada em até 48 horas após o corte, o grão de milho pode ser armazenado em silos por meses sem perder qualidade. Essa característica permite que produtores aproveitem a entressafra da soja para cultivar milho, o que favorece a rotação de culturas e reduz o impacto ambiental. Além disso, a cadeia produtiva do milho gera subprodutos de alto valor, como óleo e ração animal, o que torna a biorrefinaria do milho ainda mais atrativa economicamente.

“O custo do etanol de milho é muito inferior ao custo do etanol de cana, e muito menos complexo de fazer, porque eles não têm a parte agrícola. Após ser colhido, o milho pode ser armazenado, coisa que não é possível com a cana”, enfatiza Pereira.

Levedura desenvolvida na Unicamp pode tornar a produção de etanol de milho mais eficiente

Apesar das vantagens, o processo de fermentação do milho enfrenta um desafio técnico específico. A levedura tradicionalmente usada na produção de etanol converte facilmente o açúcar da cana em etanol. Porém, o milho não contém esse mesmo tipo de açúcar. Seu principal componente é o amido, uma longa cadeia de moléculas de glicose que a levedura não consegue processar diretamente.

Para resolver isso, é preciso quebrar o amido em moléculas menores antes da fermentação, em um processo que usa duas enzimas chamadas amilases. A primeira, a alfa-amilase, atua em alta temperatura, geralmente acima de 90 graus Celsius, e fragmenta o amido em cadeias médias. A segunda, a glucoamilase, atua durante a fermentação e finaliza a quebra, transformando essas cadeias em moléculas de glicose que a levedura consegue fermentar.

O problema é que a alfa-amilase tradicional só funciona em alta temperatura, incompatível com a fase de fermentação, que ocorre por volta de 30 graus. Por isso, ela precisa ser adicionada antes, em uma etapa separada, o que encarece o processo. Além disso, mesmo com essa etapa prévia, uma parte do amido, estimada em cerca de dez por cento, não é totalmente quebrada e acaba descartada durante a fermentação, reduzindo o rendimento final de etanol.

Encontrando a solução com ajuda computacional

A tecnologia desenvolvida na Unicamp atua como uma solução justamente para esse gargalo. Usando ferramentas de bioinformática e análise computacional de grandes bancos de dados genômicos, a equipe procurou enzimas ainda não usadas em leveduras industriais. O critério mais desafiador foi encontrar uma alfa-amilase capaz de funcionar em baixa temperatura, próxima à da fermentação, algo raro entre as enzimas conhecidas, já que a quase totalidade delas só funciona em altas temperaturas.

“Foi um esforço grande de procurar, nos milhões de dados públicos de proteínas que existem, de todos os organismos sequenciados, uma alfa-amilase que atua em baixa temperatura. 99,9% das alfa-amilases só funcionam a 80 graus”, explica Marcelo Falsarella Carazzolle, um dos pesquisadores responsáveis pela tecnologia.

Após identificar as enzimas promissoras, a equipe inseriu os genes correspondentes em uma levedura industrial e criou uma linhagem capaz de produzir sozinha tanto a nova alfa-amilase quanto uma nova glucoamilase, sem depender da adição externa dessas enzimas durante o processo. Em testes de bancada, comparando a nova levedura com uma linhagem convencional, os pesquisadores verificaram que a nova cepa dispensa completamente a adição de glucoamilase externa e ainda consegue quebrar parte do amido residual que normalmente se perde no processo tradicional.

Essa dupla capacidade representa uma vantagem direta para a indústria, com potencial de aumentar a produção de etanol usando a mesma quantidade de milho, além de reduzir custos com a compra de enzimas comerciais.

Licenciamento e potencial de mercado

Todo o trabalho de identificação das enzimas foi realizado em pouco mais de dois anos, um prazo relativamente curto que se tornou possível graças à velocidade de reprodução dos microrganismos usados nos experimentos. Embora recentes, os resultados obtidos na pesquisa já demonstraram potencial suficiente para atrair o interesse do mercado.

Atualmente, a invenção está licenciada para a empresa-filha da Unicamp, BIOINFOOD, que valida a tecnologia em escalas maiores e ajuda os pesquisadores a acessar amido hidrolisado proveniente de processos industriais reais, algo que não era possível reproduzir em condições de bancada.

Segundo os pesquisadores, o objetivo dessa nova etapa é confirmar em escala industrial os ganhos observados em laboratório, principalmente a redução do amido não aproveitado no processo convencional. Se confirmados, esses resultados podem tornar a levedura um produto comercial relevante para toda a cadeia de produção de etanol de milho no Brasil.

“Essa é uma tecnologia de altíssimo nível científico. É nosso papel transformá-la em um produto comercial relevante, com todo o rigor de validação que a escala industrial exige”, comenta Gleidson Teixeira, Co-fundador, Diretor Científico & Comercial na BIOINFOOD.

Sobre a Inova Unicamp

A Agência de Inovação da Universidade Estadual de Campinas (Inova Unicamp) é o Núcleo de Inovação Tecnológica (NIT) da Unicamp e atende a todos os campi. A Inova apoia a comunidade na proteção da propriedade intelectual da Unicamp, na transferência de tecnologia, na consolidação de acordos de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) entre a Unicamp e o setor empresarial. Ela também é responsável pela gestão do Parque Científico e Tecnológico da Unicamp e da sua Incubadora de Empresas de Base Tecnológica (Incamp), além de fomentar a comunicação e a cultura de empreendedorismo e inovação com programas de relacionamento institucional e capacitações.

Prêmio Inventores 2026

Em sua 19ª edição, o Prêmio Inventores da Unicamp, organizado pela Inova Unicamp, reconhece e valoriza os inventores que se destacaram na transferência de tecnologias da Universidade e na criação de empresas spin-offs acadêmicas.

Inventores Premiados
Gonçalo Amarante Guimarães Pereira, Fellipe da Silveira Bezerra de Mello, Marcelo Falsarella Carazzolle, Beatriz de Oliveira Vargas e Lara Isensee Saboya de Sousa, Thais Oliveira Secches, Jade Ribeiro dos Santos na categoria Propriedade Intelectual Licenciada em 2026.

Confira a lista completa de todos os premiados no site do Prêmio Inventores da Unicamp.

Programação de homenagens de 2026

Em comemoração ao Prêmio Inventores 2026, a Inova Unicamp organizou uma série de homenagens. Entre elas, estão reportagens destacando casos premiados deste ano, disponíveis para leitura nos sites da Inova Unicamp e do Prêmio Inventores.

O Prêmio Inventores 2026 tem o apoio institucional do Lumina, o Fundo Patrimonial da Unicamp, e o patrocínio de ClarkeModet e FM2S.

Texto: André Gobi – Inova Unicamp

Fotos: Pedro Amatuzzi – Inova Unicamp

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