Inteligência artificial revoluciona a pavimentação e dá suporte à engenharia
Como ferramenta de apoio, a tecnologia valoriza o conhecimento técnico dos profissionais e já encontra aplicações práticas no monitoramento e nos estudos de tráfego

A inteligência artificial já começa a fazer parte da pavimentação e da rotina das rodovias brasileiras. Câmeras capazes de identificar e classificar veículos, sistemas de monitoramento e ferramentas de análise de dados mostram que a tecnologia deixou de ser apenas uma promessa para encontrar aplicações concretas no setor.
Mas o avanço da IA traz uma questão importante: até onde a tecnologia pode contribuir para melhorar processos e decisões — e qual continua sendo o papel do conhecimento técnico?

Para o professor da FEI e especialista em pavimentação Felipe Cava, que também ministra cursos na área por meio da Além da Inércia, em São Paulo, a resposta passa por compreender a inteligência artificial como uma ferramenta.
“Assim como em outros setores, a oportunidade está em entendê-la como uma ferramenta — e não como a resolução de todos os problemas”, afirma.
Um dos exemplos mais próximos da realidade atual do uso da IA na pavimentação está nos estudos de tráfego. Segundo Felipe, diversas empresas já utilizam câmeras com inteligência artificial para realizar a contagem volumétrica e classificatória de veículos em rodovias. Além de contribuir para a redução de erros, a tecnologia aumenta a eficiência ao diminuir a dependência do trabalho manual.
Dados e modelos preditivos
Quando se fala em inteligência artificial aplicada à pavimentação, uma das expectativas é que a tecnologia possa contribuir para identificar problemas antes que eles se agravem. Mas Felipe coloca essa questão em perspectiva: a análise de dados na pavimentação e a criação de modelos preditivos não são novidades no setor.
“Isso já é feito há décadas”, observa. Com novas técnicas, a tendência é que esses modelos possam ser cada vez melhores.
Na prática, quanto mais dados podem ser coletados, organizados e analisados, maior pode ser a capacidade de acompanhar a evolução das condições de uma rodovia e apoiar decisões sobre manutenção. A inteligência artificial entra nesse processo como uma ferramenta adicional, capaz de automatizar parte da análise e lidar com grandes volumes de informações.
Um exemplo brasileiro está no Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT). A autarquia utiliza o Índice de Condição da Manutenção (ICM) para avaliar a situação da malha rodoviária. A metodologia evoluiu para o uso de inteligência artificial em 2022.
Veículos equipados com câmeras percorrem os trechos rodoviários e registram vídeos em alta resolução. As imagens são processadas pelo software DNIT-ICM, desenvolvido pelo Laboratório de Transportes e Logística da Universidade Federal de Santa Catarina (LabTrans/UFSC). O sistema utiliza visão computacional e redes neurais para detectar elementos como panelas, remendos e trincas, além de itens de conservação, como drenagem e sinalização.
Os resultados gerados pela IA passam por verificação manual, inclusive para eliminar falsos positivos. Segundo o DNIT, a assertividade do sistema varia de 90% a 95% ou mais.
A experiência mostra como a inteligência artificial pode contribuir para o monitoramento de rodovias e a avaliação das condições dos pavimentos, sem eliminar a participação dos profissionais.
É justamente essa combinação que Felipe considera fundamental.
“Uma contagem mal feita continua sendo mal feita com IA ou sem IA. Um mapeamento de defeitos continua bem feito com IA ou sem IA. Não podemos confundir as coisas.”
BOX | CASO MINAS GERAIS
Em maio de 2025, Minas Gerais começou a utilizar inteligência artificial no monitoramento das rodovias estaduais e concedidas. Veículos equipados com câmeras coletam imagens em alta resolução, posteriormente processadas para identificar e classificar defeitos no pavimento, na sinalização, na drenagem e em outros elementos da via. As informações são georreferenciadas e utilizadas para apoiar o planejamento das ações de manutenção.
Segundo o DER-MG, o monitoramento passou a ser realizado mensalmente em cerca de 20 mil quilômetros de rodovias pavimentadas. Uma análise dos seis últimos meses de 2025 apontou redução de 80% no número de buracos na malha sob responsabilidade do Estado. O órgão associa o resultado ao acompanhamento contínuo das condições das rodovias e ao planejamento mais ágil das intervenções.
O caso mostra como a inteligência artificial em rodovias, associada à coleta frequente de informações e à atuação das equipes de manutenção, pode contribuir para identificar problemas, organizar prioridades e agilizar decisões.
Fontes: DER-MG e Agência Minas Gerais.
A tecnologia como ferramenta
Para as empresas de pavimentação, Felipe vê a inteligência artificial como uma ferramenta de apoio a processos e decisões. Mas faz uma ressalva: é preciso separar as aplicações que já apresentam resultados das expectativas que ainda estão no campo das promessas.
“Muita gente tem acreditado que a IA vai resolver todos os problemas, e não vai.”
Para o especialista, conhecer as limitações da tecnologia é tão importante quanto conhecer suas possibilidades.
“Por serem ferramentas, elas possuem erros, limitações, incertezas e precisamos conhecer isso.”
Quanto maior o conhecimento do profissional sobre determinado assunto, afirma Felipe, melhor será sua capacidade para avaliar as informações produzidas pela tecnologia e tomar decisões.
A inteligência artificial, portanto, pode valorizar o conhecimento técnico ao oferecer mais informações e ferramentas para apoiar a tomada de decisão.
IA na Paving Conference
Essa relação entre inteligência artificial, pavimentação e conhecimento técnico estará presente em diferentes momentos da Paving Conference 2026, realizada de 22 a 24 de setembro, no Distrito Anhembi, em São Paulo.
Um dos destaques é a palestra “IA aplicada a pavimentos: evidências mais atuais para decisões em concessões rodoviárias”, no dia 23 de setembro, das 10h às 10h50, no Auditório 4 – Fernão Dias. A apresentação será feita por Fabio Abritta, Desenvolvimento de Negócios no Brasil da Inspech, e Glenn Brouwer, CEO e cofundador da Inspech.
A sessão discutirá como a IA pode complementar levantamentos de engenharia, apoiando a identificação e classificação de defeitos, o acompanhamento das condições do pavimento e a priorização de inspeções e manutenção.
No mesmo dia 23 de setembro, das 11h às 12h50, também no Auditório 4 – Fernão Dias, o painel “Conexões em Pavimentação: Experiências, Aprendizados e Inovações” terá como tema “Inteligência artificial na Infraestrutura”.
A mesa reúne oito profissionais mulheres — Aline Sendeski, Cecilia Merighi, Federica, Lidiane Blank, Liedi Bernucci, Luciana Dantas, Marcia Mello e Valeria Faria — com diferentes experiências em pavimentação, inovação, tecnologia e infraestrutura. A presença feminina ganha destaque em uma discussão sobre uma das principais transformações tecnológicas que chegam ao setor.
A programação inclui ainda, no dia 24 de setembro, das 9h às 12h50, o bloco “Rodovias 360º – 2ª edição – Proactive Road Safety in Europe: Combining iRAP Methodology, AI, Video Analytics and Smart Infrastructure Management”, nos Auditórios 1 – Presidente Dutra e 2 – Ayrton Senna, com Julio Urzúa e Marko Ševrović.
Mais do que apresentar a inteligência artificial como uma promessa de transformação, a Paving Conference coloca em discussão uma questão que já chegou à realidade das rodovias: como utilizar melhor as novas ferramentas sem abrir mão do conhecimento técnico necessário para interpretar os dados e tomar decisões
Para jornalistas que acompanham as transformações da infraestrutura rodoviária, a programação oferece a oportunidade de conhecer aplicações que já estão em andamento e ouvir diferentes especialistas sobre os limites e as possibilidades da inteligência artificial no setor.
Fontes de consulta: Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT); Departamento de Estradas de Rodagem de Minas Gerais (DER-MG); Agência Minas Gerais; programação oficial da Paving Conference 2026.
SERVIÇO
Paving Expo 2026
Data: 22 a 24 de setembro de 2026
Local: Distrito Anhembi – Av. Olavo Fontoura, 1209, Santana, São Paulo (SP)
Horário da exposição: 13h às 20h
Horário da Paving Conference: 9h às 20h
Realização: STO Feiras e Eventos
Site: paving.com.br
Instagram: @paving.expo | @stofeiras






