Agricultura e polinizadores: é possível conviver em harmonia?
CropLife aponta práticas sustentáveis para coexistência entre produção agrícola e biodiversidade; Rigor regulatório, ciência e capacitação garantem equilíbrio e vida às abelhas

Os agentes polinizadores têm papel crucial na natureza e na agricultura. Sem eles, o planeta não vive.
Entre os principais, as abelhas são fundamentais para a fertilidade de flores, reprodução das plantas e equilíbrio de ecossistemas, por meio do transporte de pólen. Já na agricultura, o trabalho estratégico de polinização dos insetos se expressa sobre a fecundação de alimentos como frutas, oleaginosas e legumes. Segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), cerca de 75% das culturas agrícolas do mundo dependem, em maior ou menor grau, da polinização animal.
Para que haja a coexistência harmônica entre agricultura e polinizadores é preciso a adoção de um conjunto de ferramentas técnicas e operacionais, conforme recomenda a legislação, para integrar produtividade, sustentabilidade e conservação ambiental.
Em todo o mundo, a produção de alimentos exige o uso de insumos e defensivos agrícolas para proteger as lavouras. No Brasil, país de agricultura tropical e sujeito a eventos climáticos adversos, essa necessidade é ainda mais relevante devido à maior pressão de pragas e doenças. Essas tecnologias impulsionam o crescimento das plantas, levam inovação ao campo e protegem as lavouras de ameaças fitossanitárias. Neste ambiente, o cumprimento e o rigor do arcabouço regulatório são essenciais para garantir o equilíbrio das produções agrícolas, a segurança das aplicações e a proteção das abelhas.

Compromisso permanente da CropLife Brasil, a convivência entre a produção agrícola e polinizadores é guiada pela adoção das boas práticas agrícolas (BPAs) e, principalmente, na responsabilidade compartilhada. Quando aplicadas de forma integrada, é possível produzir com eficiência e preservar serviços ecossistêmicos. A entidade aponta as principais práticas sustentáveis que contribuem para proteger os polinizadores, reduzir eventuais riscos e garantir a produção de alimentos.
Práticas de proteção
A proteção de polinizadores começa muito antes da aplicação no campo. Ela envolve reconhecimento e diferenciação de polinizadores de outros insetos e proteção de vegetação nativa nas bordas das lavouras.
Além disso, planejamento agronômico, a tomada de decisão técnica baseada em monitoramento e, principalmente, a gestão e responsabilidade operacional estão entre as medidas de proteção.
- Aplicação de insumos quando necessário: a decisão de uso das ferramentas agrícolas deve ser baseada no Manejo Integrado de Pragas (MIP), de forma precisa e proporcional a praga. O critério deve estar fundamentado nos níveis de dano econômico, para evitar pulverizações desnecessárias e reduzir a exposição de organismos não-alvo.
- Cumprimento da receita agronômica, rótulos e bulas: o uso de insumos deve seguir rigorosamente as orientações previstas na lei. Esses documentos que garantem a segurança na aplicação de pesticidas ou bioinsumos, com informações sobre toxicidade para abelhas e medidas de mitigação e garantem que a informação chegue corretamente ao produtor rural ou agricultor quanto ao uso seguro das tecnologias.
- Controle e regulagem de equipamentos de aplicação: os equipamentos de pulverização devem estar calibrados de acordo com a quantidade recomendada. A escolha correta do tamanho de gotas e atenção às condições climáticas, como vento, temperatura e umidade, evitam deriva para vegetação nativa ou culturas vizinhas em florescimento.
- Respeito ao período de floração: este pilar orienta que seja considerado o estágio da cultura e o comportamento dos polinizadores. A recomendação técnica é evitar aplicações durante a florada ou quando há atividade de forrageamento. Quando a aplicação é agronomicamente indispensável, recomenda-se realizá-la no final da tarde ou à noite, momento em que as abelhas, por exemplo, já retornaram às colmeias. Essa simples adequação de horário reduz significativamente o risco de exposição direta.
- Prevenção a contaminação hídrica: como em qualquer outro setor, é essencial o cuidado com a água, sobretudo no entorno de colmeias. Durante a aplicação é preciso evitar escorrimento, vazamentos e pulverização próxima a corpos hídricos.
Outro ponto relevante para garantir a convivência produtiva entre agricultura e apicultura é a comunicação ativa. Isso inclui o diálogo prévio entre agricultores e apicultores em toda produção agrícola.

Como a ciência e inovação contribuem na redução de riscos aos polinizadores?
Ainda segundo a FAO, entre 75% e 95% das plantas com flores apresentam algum nível de dependência desses agentes para completar seu ciclo reprodutivo ou otimizar produtividade e qualidade de frutos e sementes. Portanto, incorporar orientações técnicas voltadas à mitigação de riscos aos polinizadores não é apenas uma medida ambiental, mas um componente essencial da gestão agronômica.
O desenvolvimento tecnológico dos insumos agrícolas, fruto de investimento em pesquisa, em combinação com o aprimoramento regulatório no setor, têm buscado soluções para reduzir eventuais danos ao campo. Entre elas, pode-se destacar os processos rigorosos de triagem toxicológica e ecotoxicológica nas fases iniciais dos estudos. Os produtos mais recentes já vêm apresentando maior eficiência agronômica, o que possibilita uma frequência menor de aplicação e menos doses.
No Brasil, a agroindústria cumpre as definições regulatórias dos Marcos Legais de Agrotóxicos e Bioinsumos para registro de insumos agrícolas. Produtos de controle fitossanitário são submetidos às análises técnicas, científicas e agronômicas independentes, realizadas pelas três instâncias reguladoras federais (Anvisa, Ibama, Ministério da Agricultura e Pecuária) com foco na proteção à saúde humana e animal, do meio ambiente e na segurança alimentar.
Programas de capacitação
Hoje, a capacitação técnica agrícola é parte estruturante da política de segurança no campo. Os conteúdos englobam conceitos de risco, toxidade e exposição, além de evidenciar que não depende só da periculosidade do insumo agrícola, mas também das condições de uso, como dose e medidas de proteção. O Programa Aplicador Legal, do Ministério da Agricultura e Pecuária, tornou obrigatória a capacitação e o registro de aplicadores no Brasil, tendo como objetivo aumentar a eficácia da aplicação e reduzir riscos de intoxicação e impactos ambientais.
Os treinamentos básicos exigidos e outros extensivos podem ser encontrados na plataforma CropLife Conecta. Iniciativa digital e gratuita, a entidade disponibiliza treinamentos em videoaulas offline e e-books que incluem: exercício de leitura e interpretação dos rótulos e bulas, calibração e adequação de equipamentos, uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPI) e recomendações de boas práticas de campo.

Para que sejam eficientes, as práticas sustentáveis dependem de treinamento apropriado, padronização e atualização periódica, como explica o coordenador de Sustentabilidade da CLB, Pedro Duarte. “A importância dessas capacitações está justamente em transformar diretrizes técnicas em prática operacional. Ao qualificar aplicadores, o setor fortalece três pilares simultaneamente: segurança do trabalhador, eficiência produtiva e proteção ambiental, incluindo organismos não-alvo como insetos polinizadores, que são essenciais para a própria produtividade agrícola”, destaca.






