Aplicação de adubo em taxa variável reduz desperdícios e pode elevar produtividade
Com o Brasil dependente de importações de fertilizantes e com consumo concentrado em poucas culturas, a tecnologia combina controle eletrônico e mapas de prescrição para corrigir falhas de aplicação e direcionar nutrientes conforme a necessidade do solo

A aplicação de adubo em taxa variável tem sido adotada por produtores que buscam maior eficiência no uso de fertilizantes, especialmente em um cenário de forte dependência externa. Em 2021, mais de 85% dos fertilizantes utilizados no Brasil foram importados, e, em 2025, a Conab registrou aumento nas entradas: de janeiro a novembro, as importações somaram 41,73 milhões de toneladas, acima do mesmo período de 2024. Dados do Plano Nacional de Fertilizantes também apontam que soja, milho e cana-de-açúcar concentram mais de 73% do consumo nacional, o que amplia o impacto econômico de qualquer melhoria na eficiência de aplicação.
Os ganhos começam, muitas vezes, antes mesmo do uso de mapas de prescrição. O primeiro passo costuma ser a instalação de controle eletrônico de taxa, que mantém a dosagem constante mesmo quando a velocidade do conjunto varia ao longo da operação. Segundo Douglas Fahl Vitor, Engenheiro Agrônomo e Head de Inovação do Grupo Piccin, “entre 25% e 50% do tempo o implemento não opera exatamente dentro da faixa de velocidade para a qual foi regulado. “Nessas situações, sem controle eletrônico, a máquina acaba aplicando mais ou menos produto do que o planejado em diferentes pontos do talhão”, diz.
Na prática, isso pode resultar em superdosagem em algumas faixas e subdosagem em outras, ainda que, ao final, a média aplicada pareça próxima do planejado. Com o controlador, a tendência é reduzir essas diferenças operacionais. “Quando bem calibrado e operado, garante acerto da dosagem em pelo menos 95% da área aplicada”, reforça o especialista.

A etapa seguinte é a taxa variável baseada em mapas, quando a aplicação passa a considerar a variabilidade espacial do solo. O objetivo é substituir a lógica de dose fixa média por doses ajustadas a ambientes distintos dentro do mesmo talhão. “Em um mesmo talhão, é comum existirem áreas com diferentes níveis de fertilidade, capacidade de retenção de nutrientes e potencial produtivo. Quando se aplica uma dose uniforme, inevitavelmente algumas regiões recebem menos do que precisam, enquanto outras recebem mais do que conseguem responder”, explica Vitor.
Nessa abordagem, cada talhão terá diferentes áreas de potencial e resposta com isso é possível determinar diferentes estratégias de adubação para um mesmo talhão, o que pode melhorar a eficiência agronômica e o retorno econômico da adubação.
Organizações técnicas também descrevem esse princípio de manejo localizado. A FAO, ao tratar da eficiência do fósforo, aponta que ferramentas de agricultura de precisão podem relacionar mapas de produtividade e dados de análise de solo para orientar aplicações em taxas diferentes dentro do campo, com distribuidores controlados por computador e guiados por GPS. Na literatura científica recente, estudos que comparam taxa variável e aplicação uniforme têm relatado resultados associados a maior eficiência do uso de nutrientes e redução de excesso em áreas sem resposta agronômica, com efeitos que variam conforme cultura, solo, estratégia de amostragem e qualidade da execução.
Para que as zonas de manejo e as doses sejam definidas com precisão, o levantamento de dados é parte central do processo. A Piccin destaca o papel das análises químicas e físicas do solo e chama atenção para informações que ajudam a explicar diferenças de comportamento entre áreas com teores semelhantes de argila. “A classificação dos tipos de argila tem ganho espaço, solos com a mesma porcentagem de argila podem ter comportamentos muito distintos em relação à retenção, liberação e eficiência de uso dos nutrientes. Conhecer a tipologia da argila melhora significativamente a precisão na delimitação dos ambientes de manejo”, Fahl.
Além disso, entram no diagnóstico variáveis como histórico de manejo, intervenções na área, relevo e topografia. Publicações técnicas da Embrapa sobre adubação em taxa variável também ressaltam que a estratégia de amostragem e a representatividade dos pontos coletados influenciam diretamente a qualidade dos mapas e das prescrições.
O investimento inicial para a adoção costuma envolver três componentes: sistema eletrônico de controle no implemento, terminal GNSS no trator para posicionamento e leitura dos mapas, e amostragem de solo para gerar mapas de prescrição. O custo varia conforme o nível de tecnologia embarcada e o que o produtor já possui instalado, especialmente em relação ao terminal e à integração (como ISOBUS). O head da Piccin aponta que o retorno depende das características do solo, histórico de manejo e área trabalhada, e pode ocorrer já na primeira safra em situações com variabilidade marcada, seja por economia de insumos, seja por ganho de produtividade, além de se consolidar com o uso continuado e ajustes ao longo do tempo.






