Avanço da pavimentação em concreto ameaça indústria de reciclagem de pneus
A Abrerpi (associação que representa a indústria de reciclagem de pneumáticos) defende critérios técnicos na escolha do pavimento, sem descuidar do meio ambiente.

Está cada vez mais comum em vários estados do Brasil a aplicação do concreto ao invés do asfalto em obras viárias de todos os portes. O concreto tem maior resistência ao esforço e dura mais, porém, é mais caro, além de exigir obras mais complexas para aplicação e reparo.
Alguns setores econômicos manifestam preocupação de que a opção pelo concreto se torne tendência apenas por questões políticas ou interesses setoriais, sem a observância de critérios técnicos definidores do melhor custo-benefício em cada situação específica.
Outra preocupação é relacionada ao meio ambiente. Nas últimas décadas o asfalto se consolidou como uma importante solução ambiental para absorver a produção das recicladoras de pneus.
O Brasil gera anualmente cerca 825 mil toneladas de pneus inservíveis por ano, o equivalente a cerca de 110 milhões de unidades. De acordo com os dados oficiais do Ibama, mais de 90% desse total é reciclado, e, desse percentual, cerca de 10% a 15% têm o aço extraído, a borracha triturada e vendida para a indústria do asfalto, que mistura na composição do pavimento aumentando sua eficiência (asfalto ecológico ou asfalto-borracha).
A Rodovia dos Bandeirantes (SP-348), que liga São Paulo a Campinas, por exemplo, utiliza o asfalto com borracha de pneus triturados na sua composição. É considerada referência em qualidade do pavimento proporcionando baixo ruído, segurança e conforto aos usuários da rodovia.
Na perspectiva de aumentar a qualidade das vias e ao mesmo tempo proporcionar uma solução para a destinação de pneumáticos, vários estados do Brasil aderiram ao Convênio ICMS Nº 31/2006.
Esse convênio estabelecido no âmbito do Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz) autoriza que o estado signatário, por meio de lei, conceda isenção de ICMS ao asfalto constituído de no mínimo 15%, e no máximo, 25% de borracha moída de pneus usados. O dispositivo inicialmente beneficiava quatro estados, mas sofreu várias atualizações e atualmente abrange Amapá, Ceará, Goiás, Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul, Rondônia, São Paulo e o Distrito Federal.
De acordo com representantes da indústria de reciclagem, graças a estes incentivos fiscais, a logística reversa de pneumáticos está chegando em cidades e estados que enfrentavam grandes problemas com descarte irregular de pneus.
“Todo esse avanço na destinação de pneus, inclusive melhorando a qualidade de vias públicas, não pode ser perdido em função do lobby de setores da indústria. É preciso muita cautela do gestor público, além de rigor técnico, para entender a aplicabilidade dos diferentes tipos de pavimento e, sempre que possível, enxergar no asfalto com borracha um grande aliado do meio ambiente”, avalia Felipe Vilela, presidente da Abrerpi (Associação Brasileira das Empresas de Reciclagem de Pneus Inservíveis).
Análise ampla favorece asfalto
Um estudo conduzido em 2025 pelo Grupo de Estudos e Pesquisas em Pavimentação e Segurança Viária (GPPASV), da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), mostrou que pavimentos asfálticos tendem a apresentar menor custo total de ciclo de vida e menor geração de emissões em comparação com alternativas rígidas. As principais razões, segundo esse estudo, são maior facilidade de manutenção, menor consumo energético na aplicação e possibilidade de reciclagem do material.
O estudo também destaca que tecnologias como asfaltos modificados e reciclagem de pavimentos ampliam ainda mais esses ganhos, reduzindo a necessidade de novas matérias-primas e contribuindo para uma infraestrutura viária mais eficiente do ponto de vista econômico e ambiental.








