Biofortificação: como ampliar a qualidade nutricional dos alimentos desde o campo
Estratégia aumenta a oferta de minerais e vitaminas em alimentos básicos da dieta e pode contribuir para reduzir carências nutricionais na população

Garantir alimentos em quantidade suficiente continua sendo um dos grandes desafios globais. No entanto, a segurança alimentar também está diretamente relacionada à qualidade do que chega à mesa. Na América Latina e no Caribe, 181,9 milhões de pessoas não tinham condições de pagar por uma dieta saudável em 2024, segundo o mais recente Panorama Regional da Segurança Alimentar e Nutrição, elaborado por organismos das Nações Unidas. O documento também aponta que as deficiências de micronutrientes permanecem entre os desafios nutricionais da região.
Diante dessa realidade, a biofortificação surge como uma das alternativas para aumentar a oferta de micronutrientes por meio de alimentos que já fazem parte da dieta da população. O processo consiste em elevar a concentração ou a disponibilidade de determinados nutrientes nos alimentos ainda durante seu desenvolvimento no campo. Diferentemente da fortificação convencional, em que nutrientes são adicionados após a produção agrícola – geralmente durante o processamento industrial -, a biofortificação atua ainda na fase de cultivo.
“Garantir quantidade suficiente continua sendo fundamental, mas a agricultura também pode incorporar a qualidade nutricional entre os fatores considerados no cultivo”, explica Valter Casarin, agrônomo e coordenador geral e científico da Nutrientes para a Vida (NPV), iniciativa da Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA) que busca desmistificar o papel dos fertilizantes.
Na prática, a biofortificação pode ocorrer por diferentes abordagens: uma delas envolve o melhoramento genético vegetal, com a seleção de variedades capazes de concentrar maiores teores de determinados nutrientes nas partes comestíveis. A segunda alternativa é a chamada biofortificação agronômica, realizada por meio do manejo nutricional das culturas. Nesse processo, nutrientes são fornecidos às plantas durante o cultivo para favorecer sua presença nas partes que serão consumidas. Os dois métodos também podem atuar de forma conjunta.
Na biofortificação agronômica, porém, o resultado depende de diferentes fatores. “A resposta varia de acordo com a cultura, o nutriente e a forma como esse manejo é realizado. Não basta simplesmente fornecer determinado nutriente à planta. É preciso compreender sua capacidade de absorção, transporte e acúmulo nas partes que serão consumidas. Esse conhecimento permite definir práticas mais eficientes para aumentar a concentração de micronutrientes nos alimentos”, ressalta o engenheiro agrônomo, doutor em nutrição de plantas e embaixador da NPV, Prof. Milton Moraes (UFMT).
O potencial da estratégia ganha relevância quando aplicado a alimentos consumidos com frequência. Culturas como arroz, feijão, milho, trigo, mandioca e batata-doce estão entre as trabalhadas em programas de biofortificação. Na América Latina, já foram desenvolvidas variedades de feijão e feijão caupi com maior teor de ferro, arroz e trigo com zinco e batata-doce, mandioca e milho com maior presença de provitamina A.
De acordo com o HarvestPlus, iniciativa pioneira na pesquisa e expansão da biofortificação em escala global, variedades com maior concentração de micronutrientes já foram liberadas no Brasil, Bolívia, Colômbia, El Salvador, Guatemala, Honduras, México, Nicarágua e Panamá, entre outros países da região. Algumas culturas também permanecem em fase de testes em diferentes localidades, indicando a continuidade das pesquisas na área.
No Brasil, a Rede BioFORT, coordenada pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), desenvolve pesquisas com alimentos básicos, como os descritos acima, buscando elevar a presença de minerais e vitaminas essenciais por meio dessas culturas.
Entretanto, vale ressaltar que os alimentos biofortificados não são o suficiente para eliminar a insegurança alimentar. “A estratégia deve estar associada a outras iniciativas, que envolvem desde a garantia a uma alimentação diversificada até às ações em áreas agrícola e sanitária”, completa Casarin.
Sobre a Nutrientes para a Vida (NPV)
A Nutrientes Para a Vida (NPV) é uma iniciativa da Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA), dedicada a ampliar o conhecimento da sociedade sobre o papel dos fertilizantes na produção de alimentos, na nutrição humana e na sustentabilidade ambiental. Com atuação baseada em informação técnica e científica qualificada, a NPV contribui para o debate público sobre segurança alimentar, manejo eficiente do solo e preservação dos recursos naturais, conectando o campo ao cotidiano das pessoas.
Por meio de conteúdos educativos, busca desmistificar conceitos, combater associações indevidas entre fertilizantes e outros insumos agrícolas, e reforçar a importância da reposição responsável de nutrientes para a produtividade agrícola e a qualidade dos alimentos. A iniciativa é uma extensão da fundação Nutrients for Life, que é uma organização que atua com o mesmo propósito em países como Estados Unidos e Canadá.






