Clima muda calendário e estratégia do produtor de grãos no Centro-Oeste; especialista explica como reduzir riscos no campo

Clima muda calendário e estratégia do produtor de grãos no Centro-Oeste; especialista explica como reduzir riscos no campo

Irregularidade das chuvas, veranicos e temperaturas elevadas levam produtores a investir em irrigação e manejo para aumentar a previsibilidade e a estabilidade das safras.

 Clima deixa de seguir o calendário e muda estratégia do produtor de grãos no Centro-Oeste; especialista explica como reduzir riscos no campo
O produtor de grãos do Centro-Oeste brasileiro está diante de um novo cenário. Se antes o regime de chuvas permitia maior previsibilidade para o planejamento das safras, hoje a irregularidade climática exige decisões cada vez mais estratégicas para reduzir riscos e garantir estabilidade produtiva.

Nos últimos anos, a alternância entre estiagens, chuvas concentradas e temperaturas elevadas aumentou a vulnerabilidade das lavouras de soja e milho, principalmente em regiões onde a sucessão de culturas depende do cumprimento rigoroso das janelas de plantio. Em 2026, o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) registrou chuvas irregulares, temperaturas acima da média e aumento do risco de déficit hídrico em áreas do Centro-Oeste.

Segundo Carlos Sanches, diretor de Negócios de Grãos e Fibras da Netafim, o desafio deixou de ser apenas a quantidade de chuva e passou a ser sua distribuição ao longo do ciclo produtivo. “Temos observado maior irregularidade no início e no encerramento do período chuvoso, ocorrência de veranicos em momentos críticos e temperaturas elevadas, que aumentam a demanda de água pelas culturas. Isso reduz a confiabilidade das janelas tradicionais de plantio e estreita a margem de segurança do produtor, especialmente em sistemas intensivos, como a sucessão entre soja e milho segunda safra”.

Na prática, a irregularidade das chuvas compromete a germinação, aumenta o estresse hídrico durante a floração e o enchimento de grãos, reduz produtividade e qualidade e impacta todo o planejamento da propriedade, com atrasos no plantio, redução da janela da segunda safra, menor eficiência dos fertilizantes e maior exposição financeira.

Diante desse cenário, o setor vive uma mudança de mentalidade. A irrigação deixa de ser encarada apenas como uma solução para períodos de seca e passa a integrar a estratégia de gestão das propriedades. “Os produtores mais tecnificados estão deixando de olhar a irrigação apenas como uma resposta à seca e começam a tratá-la como parte do planejamento estrutural da propriedade”, conta Sanches.

Segundo o diretor, o foco deixa de ser exclusivamente o aumento da produtividade e passa a incluir redução de riscos, proteção das janelas de plantio, melhor aproveitamento da área e maior previsibilidade dos resultados.

Nesse contexto, a irrigação assume papel estratégico na gestão de risco agrícola. Embora não elimine os efeitos do clima, reduz significativamente a dependência da chuva nos momentos mais sensíveis das culturas. “Ela permite que o produtor proteja o estabelecimento da lavoura, mantenha o desenvolvimento das plantas durante veranicos e tenha maior controle sobre momentos críticos, como floração e enchimento de grãos. Também contribui para preservar o calendário agrícola, reduzir atrasos e dar mais segurança à implantação da segunda ou até da terceira safra”, explica Sanches.

Para o executivo, o retorno desse investimento vai além do aumento da produtividade. “O retorno da irrigação deve ser avaliado não apenas pelo ganho máximo de produtividade, mas também pela redução da variabilidade entre safras e pela maior previsibilidade operacional e financeira”.

Essa busca por maior previsibilidade também impulsiona a adoção de tecnologias mais integradas. De acordo com a Netafim, cresce o interesse por fertirrigação, sensores de umidade do solo, automação, informações climáticas e soluções capazes de ampliar a área irrigada, com destaque para a harmonização entre pivôs centrais e sistemas de gotejamento subterrâneo. A combinação das duas tecnologias permite irrigar 100% da área produtiva, inclusive regiões que normalmente ficam fora do alcance do pivô, ampliando a eficiência do uso da água, a estabilidade da produção e o aproveitamento da área cultivada.

Além de reduzir riscos, o uso integrado dessas tecnologias permite utilizar água, energia e nutrientes de forma mais eficiente ao aplicar exatamente o que a cultura necessita, no momento e no local corretos, favorecendo maior controle do manejo e melhor desempenho agronômico. “A irrigação por gotejamento parte de um princípio simples: aplicar a quantidade necessária, no local correto e no momento em que a planta realmente precisa”, conta o especialista.

Na avaliação de Sanches, o agronegócio brasileiro está entrando em uma nova fase, em que a previsibilidade passa a ser tão importante quanto a produtividade. “A produtividade continuará sendo essencial, mas produzir muito em uma safra e sofrer uma forte quebra na seguinte torna o negócio mais vulnerável. O próximo salto do agro brasileiro não será apenas produzir mais por hectare, mas produzir com maior consistência, eficiência e controle”.

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