Data centers competitivos começam por cadeias de suprimentos sólidas

por Luis Cuevas*
Os últimos cinco anos colocaram as cadeias globais de suprimentos sob uma pressão sem precedentes, com guerras comerciais, desastres naturais e uma pandemia, que expuseram vulnerabilidades em praticamente todos os setores da economia. Saímos da era do “just in time” e entramos definitivamente na era do “just in case”. As organizações mais preparadas compreenderam que esses desafios representam também uma oportunidade: transformar suas redes de suprimentos em diferenciais competitivos.
Esse gerenciamento vai muito além da logística ou da eficiência operacional – trata-se de um componente central da estratégia de negócios com impacto direto sobre a rentabilidade, a satisfação do cliente e a capacidade de inovação. Um estudo da Accenture mostra que empresas com cadeias de suprimentos avançadas apresentam, em média, 23% mais rentabilidade. Por muito tempo, essas estruturas foram planejadas de forma isolada da estratégia corporativa, mas hoje os líderes de mercado integram plenamente o desenho do ecossistema aos objetivos de longo prazo da organização. Essa mudança de mentalidade prioriza agilidade, previsibilidade e crescimento sustentável.
Nos últimos anos, observamos um movimento consistente de regionalização. De acordo com a McKinsey, 60% das empresas já avançaram em direção a cadeias mais localizadas, com o objetivo de aumentar a resiliência e responder com mais rapidez às variações de demanda e às novas exigências regulatórias.
Governos também estão impulsionando essa transformação. O European Chips Act, por exemplo, busca dobrar a participação da Europa no mercado global de semicondutores até 2030, enquanto o programa Make in India pretende consolidar a Índia como potência manufatureira global. Nos Estados Unidos, legislações como o Buy American Act e o Trade Agreements Act reforçam a prioridade por produtos de origem nacional e o cumprimento de acordos comerciais justos. Entender como essas políticas afetam o seu setor é o primeiro passo para desenvolver uma estratégia de fornecimento realmente sólida.
Na Schneider Electric, estruturamos nossas operações de cadeia de suprimentos em quatro grandes hubs – Europa, China, Estados Unidos e Índia. Cada um é responsável por desenvolvimento de produtos, pesquisa e inovação, cadeia de fornecimento e gestão de fornecedores, atuando em estreita colaboração com as equipes regionais de vendas e marketing. Esse modelo confere flexibilidade e velocidade para atender às especificidades de cada mercado sem abrir mão da padronização e da sinergia global. Ao mesmo tempo, manter uma visão global e padrões unificados é crucial para garantir resiliência e continuidade diante de imprevistos locais. Encontrar o equilíbrio entre regionalização e integração global é o que define a robustez desse modelo.
Apesar dos avanços, a McKinsey aponta um sinal de alerta: algumas empresas estão reduzindo esforços de fortalecimento da resiliência, possivelmente por acreditarem que o pior já passou. As companhias líderes, por outro lado, estão indo além e investindo em cadeias “antifrágeis” – sistemas capazes não apenas de resistir a choques, mas de se tornarem mais fortes após cada crise. Essa evolução depende, sobretudo, do uso inteligente da tecnologia.
Soluções digitais como Internet das Coisas (IoT), inteligência artificial (IA), aprendizado de máquina e blockchain permitem visibilidade total e tomada de decisão em tempo real. Painéis integrados e processos automatizados eliminam silos e reduzem erros, tornando a cadeia mais ágil, responsiva e eficiente. Essas ferramentas não pertencem ao futuro distante e já estão disponíveis, sendo utilizadas por empresas visionárias em todo o mundo.
O avanço tecnológico, porém, não é suficiente por si só. À medida que as cadeias se tornam mais complexas e baseadas em dados, cresce a necessidade de profissionais com novas competências. CIOs, CSCOs e equipes de RH precisam atuar de modo conjunto para criar uma cultura de aprendizado contínuo, inovação e colaboração entre áreas. Isso envolve capacitar equipes existentes, atrair talentos digitais e desenvolver uma mentalidade aberta à transformação. A tecnologia só entrega resultados quando há pessoas preparadas para utilizá-la de maneira estratégica.
Outro aspecto decisivo é o fortalecimento de parcerias estratégicas. A continuidade operacional depende tanto dos fornecedores diretos quanto dos elos mais distantes da cadeia. Escolher parceiros que invistam em sua própria resiliência e compartilhem uma visão de longo prazo é fundamental para manter a estabilidade do ecossistema. Grandes rupturas geralmente têm origem em pontos menos visíveis da cadeia, por isso a transparência e a cooperação em todos os níveis são essenciais.
As disrupções prosseguirão fazendo parte do cenário global. O que vai diferenciar as empresas de sucesso será sua capacidade de antecipar mudanças, reagir rapidamente e aprender com as crises. Investir em antifragilidade, inovação digital e capacitação humana não é uma escolha – é uma necessidade estratégica. As decisões tomadas hoje definirão o futuro da cadeia de suprimentos e, consequentemente, o sucesso sustentável dos negócios nas próximas décadas.
*Luis Cuevas é diretor de Secure Power e Negócios de Data Centers da Schneider Electric no Brasil






