Dia de Campo mostra que pera pode ser alternativa produtiva no Semiárido baiano
A Embrapa Semiárido realizou, no dia 2 de fevereiro, um Dia de Campo no município de Casa Nova (BA), reunindo produtores rurais e técnicos agrícolas interessados em conhecer de perto o potencial da cultura da pereira no Semiárido baiano. O evento integrou as ações da Fase II do Projeto Eólicas de Casa Nova, iniciativa da Embrapa Semiárido, financiada pela AXIA Energia Nordeste, em parceria com a Prefeitura Municipal.

Tradicionalmente associada a regiões de clima frio, a produção de pera começa a se firmar no Vale do São Francisco como resultado direto do trabalho da pesquisa agropecuária, que vem adaptando tecnologias de manejo às condições climáticas do Sertão.
Durante o Dia de Campo, os participantes tiveram acesso a informações técnicas sobre as características da cultura, as particularidades de manejo, as condições de produção no Semiárido e as variedades atualmente indicadas para a região. As orientações foram repassadas pelo pesquisador Paulo Roberto Lopes, responsável pelos estudos com a cultura e pelo acompanhamento da área demonstrativa instalada junto ao produtor parceiro do projeto.
Segundo o pesquisador, a introdução da pereira no Semiárido enfrentou, inicialmente, forte ceticismo em razão das exigências climáticas da planta. “As variedades com as quais trabalhamos, a exemplo da Triunfo, necessitam, em condições tradicionais, de cerca de 450 horas de frio por ano, com temperaturas iguais ou inferiores a 7,2 °C. Aqui, a temperatura mínima dificilmente fica abaixo de 20 °C”, explicou.
Diante desse desafio, a Embrapa desenvolveu um manejo capaz de substituir a necessidade do frio, utilizando inibidores de crescimento, estratégia semelhante à aplicada na cultura da mangueira. A partir de testes com diferentes doses e manejos, foi possível viabilizar a produção de pera no Semiárido.
Um dos diferenciais observados na região é a possibilidade de realizar até duas safras por ano na mesma planta, algo inédito entre as áreas produtoras de pera no mundo. “Após a colheita, em cerca de 30 dias, conseguimos realizar uma nova indução floral e obter outra safra. Normalmente temos uma safra maior e outra menor, mas ambas com boa produtividade e qualidade”, destacou Paulo Roberto.
De acordo com o pesquisador, o potencial de mercado é expressivo. O Brasil produz menos de 5% da pera que consome e importa cerca de 180 mil toneladas por ano. Caso houvesse maior oferta de fruta nacional a preços mais acessíveis, o consumo poderia chegar a 300 mil toneladas anuais. “Isso mostra que há espaço para crescer, especialmente com organização coletiva, agregação de valor e acesso a mercados mais exigentes”, ressaltou.
Sanidade favorece cultivo no Semiárido
Além do desempenho produtivo, o aspecto fitossanitário também favorece a expansão da cultura. Em apresentação técnica durante o Dia de Campo, o pesquisador José Eudes Oliveira, da Embrapa Semiárido, destacou que, diferentemente das regiões tradicionais de cultivo, a ocorrência de pragas na pereira no Semiárido tem sido baixa.
“Historicamente, a cultura da pera enfrenta pragas importantes no Sul do país, como pulgão-lanígero, grafolita, ácaros e mosca-das-frutas. Aqui, após mais de 16 anos de acompanhamento, não observamos infestações severas que inviabilizem a produção”, afirmou.
Segundo ele, a principal atenção deve ser dada às cochonilhas, que podem comprometer a qualidade dos frutos, e à mosca-das-frutas, considerada um desafio potencial. Ainda assim, a recomendação é o monitoramento constante, com uso de armadilhas e manejo preventivo, priorizando estratégias como iscas tóxicas e controle biológico no solo, evitando pulverizações generalizadas.
Parcerias e nova fase do Projeto
O Dia de Campo integrou as ações do Projeto Eólicas de Casa Nova, que encerra sua Fase II com resultados positivos e já conta com a Fase III aprovada. Na área atendida pelo projeto, o produtor rural Gilvan Nogueira compartilhou sua experiência com a cultura da pereira. “É uma grande honra fazer parte desse projeto. Os resultados têm sido muito positivos e pretendo ampliar a área de cultivo”.
Segundo ele, a principal atenção está na condução dos galhos e nas podas, que influenciam diretamente na frutificação, “mas, de modo geral, é uma cultura relativamente simples de trabalhar. Com orientação técnica e dedicação, a resposta no campo é muito boa”, relatou.
Para o técnico agrícola, Clébio da Silva Santos, que acompanha o Projeto Eólicas de Casa Nova desde 2017, a iniciativa tem deixado um legado importante para o município. “Produzir a pera no Vale do São Francisco era algo impensável. Hoje, Casa Nova concentra as duas áreas comerciais da Bahia, resultado direto da pesquisa aplicada e do trabalho conjunto entre a Embrapa, a AXIA Energia Nordeste e os produtores”, destacou.
Segundo o pesquisador Rebert Coelho, a Fase III do projeto prevê a ampliação das ações no território, com a perfuração de poços artesianos, a instalação de sistemas de irrigação e o fortalecimento da fruticultura, incluindo culturas como melão e melancia, além da expansão das atividades de apicultura.
A cultura da pereira também permanece como uma das apostas do projeto. “A iniciativa deve fortalecer ainda mais o trabalho da Embrapa, a responsabilidade socioambiental da AXIA Energia Nordeste e, sobretudo, beneficiar o produtor rural de Casa Nova e região, que recebe orientação técnica e os insumos necessários para aplicar as tecnologias e melhorar a qualidade de vida no Semiárido”, ressalta Rebert.






