Embrapa e Instituto IPÊ vão usar palmeira juçara para recuperar áreas degradadas no Sistema Cantareira

Especialistas das duas instituiçõers, durante a reunião de alinhamento das ações do projeto em Jaguariúna, SP. Foto: M. Vicente – Embrapa
Pesquisadores da Embrapa Meio Ambiente e especialistas do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ) participaram de reunião técnica, dia 19 de março, em Jaguariúna (SP), para alinhar uma agenda de inovação baseada na bioeconomia da palmeira juçara. A proposta busca transformar essa espécie nativa da Mata Atlântica em um eixo de desenvolvimento rural sustentável, integrando a geração de renda à restauração ambiental e à segurança hídrica da região.
A iniciativa faz parte do Projeto de Bioeconomia da Palmeira Juçara, da Embrapa, dentro das ações do programa “Semeando Água“, do IPÊ. O foco principal é a recuperação de nascentes e áreas degradadas no entorno do Sistema Cantareira, visando melhorar a disponibilidade e a qualidade da água por meio da recomposição florestal e de práticas produtivas mais resilientes
O diferencial da estratégia em discussão é colocar a economia no centro da restauração. A ideia é criar alternativas concretas de renda para produtores rurais a partir do uso sustentável da juçara, estimulando a permanência no campo e reduzindo a pressão sobre áreas degradadas. Entre as possibilidades estão o beneficiamento da polpa, conhecida como juçaí ou “açaí de juçara”, alimento muito semelhante ao açaí, o aproveitamento do óleo e o desenvolvimento de novos produtos e subprodutos para a indústria de alimentos, cosméticos e outros.
O pesquisador Alexandre Uezu, coordenador do “Semeando Água”, destaca que o projeto parte da integração entre conservação e produção. “A proposta é transformar áreas de pastagem degradada em sistemas produtivos sustentáveis, que recuperem a vegetação e, ao mesmo tempo, gerem renda. Isso impacta diretamente a infiltração de água no solo e a regularização da vazão dos rios”, afirma.
Segundo Uezu, a atuação ocorre em uma área de cerca de 230 mil hectares, o que exige articulação institucional e presença contínua junto aos produtores. A recomposição de áreas no entorno de nascentes e reservatórios é uma das prioridades. “Melhorar o fluxo da água da chuva e aumentar a disponibilidade hídrica passa necessariamente pela recuperação dessas áreas”, diz. Ele ressalta que a diversificação produtiva é condição para dar escala às ações.
“Sem viabilidade econômica, não há continuidade”.
Nesse contexto, a juçara surge como alternativa estratégica. Espécie típica da Mata Atlântica, historicamente pressionada pela exploração ilegal do palmito, ela ganha novo valor com o uso dos frutos. “O aproveitamento sustentável cria uma opção ao desmatamento e ao uso extensivo de pastagens”, afirma Uezu.
A atuação da Embrapa, segundo ele, contribui para qualificar a cadeia produtiva, do manejo ao processamento.
Aporte técnico e visão estratégica
A coordenação do projeto pela Embrapa cabe à pesquisadora Aline Biasoto, que enfatiza o rigor técnico da iniciativa. “Buscamos realizar uma análise completa das propriedades, monitorando desde a pegada hídrica e de carbono até a polinização e indicadores de sustentabilidade”, explica. Esse diagnóstico é o que orienta as decisões em campo e permite mensurar o impacto real das práticas adotadas.
Além do monitoramento ambiental, o projeto é orientado para execução de um mapeamento social das áreas para propor soluções alinhadas à realidade local. “O foco é a economia circular, buscando o aproveitamento integral do fruto para reduzir desperdícios e desenvolver novos subprodutos para as indústrias de alimentos, cosméticos e outras possibilidades, indo além da polpa já consolidada no mercado”, completa.
Biasoto ressalta que a palmeira juçara (Euterpe edulis) é uma “espécie-chave”: seus frutos alimentam mais de 160 espécies da fauna, que atuam como dispersores naturais e agentes de regeneração da floresta. Assim, o fortalecimento dessa cadeia produtiva não gera apenas valor comercial, mas sustenta uma rede ecológica vital.
Ela ainda lembra que ao integrar ciência, financiamento e atuação territorial, com o apoio de frentes como o Semeando Água, o projeto na Embrapa busca escala para consolidar a juçara como vetor de desenvolvimento no Cantareira. “A expectativa é que a espécie se torne o pilar de uma economia circular, capaz de recuperar paisagens, proteger recursos hídricos e garantir a permanência do produtor no campo com dignidade financeira”, projeta a pesquisadora.






