“Liberation Day” e as Oportunidades da Transição Regenerativa para a Agricultura Brasileira

"Liberation Day” e as Oportunidades da Transição Regenerativa para a Agricultura Brasileira
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“Liberation Day” e as Oportunidades da Transição Regenerativa para a Agricultura Brasileira

O Brasil reúne condições únicas para transformar os desafios do cenário geopolítico e comercial atual em uma vantagem estratégica de longo prazo. A recente adoção de tarifas recíprocas pelos Estados Unidos, apelidadas de “Liberation Day”, embora à primeira vista represente uma ameaça aos países exportadores e importadores de insumos, pode, no caso brasileiro, acelerar a transição para uma agricultura regenerativa e soberana.

Porém, um ciclo de imprevisibilidade nos custos de fertilizantes sintéticos e defensivos químicos, que se soma a outros dos últimos anos (ver figura), amplia a urgência de uma reestruturação das cadeias produtivas baseadas em insumos nacionais, biológicos e minerais, e fortalece o argumento pela valorização de um modelo de produção tropical regenerativo.

Por: Eduardo Martins, Grupo Associado de Agricultura Sustentável - GAAS; Reginaldo Minaré, Associação Brasileira de Bioinsumos - ABBINS; Frederico Bernardes, Associação Brasileira dos Produtores de Remineralizadores de Solo e Fertilizantes Naturais - ABREFEN; e Paulo Romano, Instituto Fórum do Futuro – IFF. O Brasil reúne condições únicas para transformar os desafios do cenário geopolítico e comercial atual em uma vantagem estratégica de longo prazo. A recente adoção de tarifas recíprocas pelos Estados Unidos, apelidadas de "Liberation Day", embora à primeira vista represente uma ameaça aos países exportadores e importadores de insumos, pode, no caso brasileiro, acelerar a transição para uma agricultura regenerativa e soberana. Porém, um ciclo de imprevisibilidade nos custos de fertilizantes sintéticos e defensivos químicos, que se soma a outros dos últimos anos (ver figura), amplia a urgência de uma reestruturação das cadeias produtivas baseadas em insumos nacionais, biológicos e minerais, e fortalece o argumento pela valorização de um modelo de produção tropical regenerativo.

A dependência brasileira de insumos importados é estrutural. Segundo Gabriel da Silva Medina, professor adjunto das Universidades de Brasília e Federal de Goiás (2022), mais de 70% dos fertilizantes utilizados na cadeia da soja vêm do exterior, e os princípios ativos dos pesticidas são majoritariamente importados da China e da União Europeia. Eventos recentes, como a guerra comercial entre EUA e China, a pandemia de COVID-19 e o conflito Rússia-Ucrânia, revelaram a vulnerabilidade da segurança produtiva do Brasil. Entre 2020 e 2022, o cloreto de potássio passou de US$ 250 para mais de US$ 520 por tonelada; a ureia chegou a US$ 700/t no pico, e o glifosato ultrapassou os US$ 9/kg, dobrando seu preço em dois anos. Esses dados demonstram a fragilidade de uma estratégia produtiva excessivamente dependente do mercado internacional.

Entretanto, diferentemente de outros países emergentes, o Brasil já construiu os pilares regulatórios e tecnológicos necessários para uma substituição sustentável e competitiva desses insumos. A Lei dos Bioinsumos (Lei nº 15.070/2024), permite e incentiva a produção on farm de insumos biológicos. A regulamentação dos remineralizadores (Lei nº 12.890/2013) legitima o uso de fontes minerais nacionais. Além disso, o Código Florestal (Lei nº 12.651/2012) estabelece parâmetros claros para conservação e uso do solo.

Esses fundamentos criam uma oportunidade singular: reconverter áreas já abertas e muitas vezes degradadas em sistemas produtivos de alta eficiência ecológica e econômica. De acordo com o relatório da BCG (2024), a transição regenerativa em 40 milhões de hectares no Cerrado brasileiro pode gerar até R$ 32 bilhões por ano em valor adicional, com a possibilidade de sequestrar mais de 1,2 bilhão de toneladas de CO₂ em três décadas.

Esse modelo não apenas responde às crises recorrentes de insumos, como também atua de forma preventiva contra a expansão desordenada da fronteira agrícola. Em ciclos anteriores de aumento da demanda internacional, como no auge da guerra comercial EUA-China, verificou-se um salto no desmatamento especulativo, sobretudo no MATOPIBA. A agricultura regenerativa rompe essa lógica ao priorizar a intensificação com qualidade ecológica em áreas já antropizadas, promovendo a regeneração ativa de solos e a integração funcional com as paisagens naturais. Sistemas como a integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF), agroflorestas, adubação verde e plantio direto com cobertura permanente elevam a resiliência climática, a retenção hídrica e a vida no solo, reduzindo drasticamente a necessidade de novos desmatamentos.

Além disso, a substituição de importações por cadeias territoriais regenerativas permite que os recursos antes destinados a compras externas circulem regionalmente. A estruturação de biofábricas locais, moagem de rochas silicáticas, polos de compostagem e redes de sementes adaptadas estimula a economia rural, gera empregos qualificados e fortalece a cooperação entre grandes, médios e pequenos produtores. Essa transição, quando bem conduzida, une soberania tecnológica, desempenho agronômico e valor ambiental, gerando impactos econômicos e sociais sem precedentes para o Brasil rural e urbano.

Portanto, o Liberation Day pode ser interpretado não apenas como uma medida protecionista, mas como um sinal do esgotamento de um modelo global baseado na dependência de insumos centralizados e comércio linear de commodities. Ao adotar políticas de incentivo à regeneração, ampliar os instrumentos de crédito e pagamento por serviços ambientais, fomentar mercados para produtos de base regenerativa e reforçar sua diplomacia comercial climática, o Brasil pode consolidar uma nova identidade agroexportadora.

A agricultura tropical regenerativa é, agora mais do que nunca, a estratégia que une segurança alimentar, segurança climática e segurança econômica. O Brasil tem a base, a demanda e a oportunidade. O que está em jogo é como escolher crescer: reproduzindo vulnerabilidades ou regenerando sua vocação mais potente.

Por: Eduardo Martins, Grupo Associado de Agricultura Sustentável – GAAS; Reginaldo Minaré, Associação Brasileira de Bioinsumos – ABBINS; Frederico Bernardes, Associação Brasileira dos Produtores de Remineralizadores de Solo e Fertilizantes Naturais – ABREFEN; e Paulo Romano, Instituto Fórum do Futuro – IFF.

 

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