Plantas que muitos produtores arrancariam da lavoura pode ajudar a proteger a produção de batata-semente

Plantas que muitos produtores arrancariam da lavoura podem ajudar a proteger a produção de batata-semente

Pesquisa do Instituto Agronômico (IAC-APTA) avalia o uso de plantas indicadoras para alertar produtores sobre a presença precoce de viroses na lavoura.

 Plantas que muitos produtores arrancariam da lavoura pode ajudar a proteger a produção de batata-semente

À primeira vista, elas parecem mato crescendo entre as plantas de batata “inglesa” (Solanum tuberosum). Em muitas propriedades, provavelmente seria arrancada sem pensar duas vezes. Mas, no Centro de P&D Fitossanidade do Instituto Agronômico (IAC), da Diretoria de Pesquisa dos Agronegócios (APTA), vinculada à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, essas plantas permanecem no campo, pois foram produzidas em ambiente livre de insetos vetores de viroses; mantendo-as sadias, até o momento ideal de serem levadas ao campo. O motivo dessa exposição é muito especial: elas podem ser as primeiras a indicarem se há ou não vírus transmitidos por insetos circulando na lavoura.

A ideia é simples, mas baseada em décadas de pesquisa em fitovirologia. Pesquisadores do IAC estudam o uso de plantas naturalmente mais sensíveis aos vírus da batata como uma ferramenta de biomonitoramento. Funcionando como verdadeiras “sentinelas”, elas podem revelar precocemente a presença de viroses, antes mesmo que as plantas de batata apresentem sintomas visíveis.

A tecnologia tem potencial para auxiliar principalmente a produção de batata-semente, uma das etapas mais sensíveis da cadeia produtiva. As viroses estão entre os principais desafios da cultura porque comprometem a qualidade do material propagativo e reduzem gradativamente o potencial produtivo das lavouras. Embora não representem risco para o consumo humano, os vírus podem comprometer o vigor das plantas e reduzir a produtividade das gerações seguintes, tornando a qualidade sanitária especialmente importante na produção de batata-semente.

Além da dificuldade de identificar visualmente essas doenças, os sintomas das viroses podem ser confundidos com deficiência nutricional, fitotoxicidade causada por agrotóxicos ou até condições climáticas adversas. Por isso, a confirmação normalmente depende de análises laboratoriais. A proposta do biomonitoramento é servir como uma ferramenta complementar, auxiliando tanto os inspetores no processo de certificação da produção para o comércio de batata-semente, como também os técnicos e os próprios produtores, que desejam guardar parte da parte da produção como batata-semente própria, economizando na produção, no plantio seguinte. As plantas identificadoras (sentinelas) os informam, mais rapidamente quando há indícios da presença de vírus e quando é necessário aprofundar a investigação e tomada de decisão no manejo da plantação.

As plantas indicadoras utilizadas são da mesma família botânica da batata, as solanáceas. Elas apresentam maior sensibilidade aos vírus transmitidos por insetos vetores, principalmente os pulgões e moscas brancas. São distribuídas em pequenos grupos em locais estratégicos da propriedade, como bordaduras da lavoura ou áreas mais expostas à entrada de insetos vetores. Durante as inspeções rotineiras, o produtor observa essas plantas e retira as flores, não deixando formar frutos, para que elas mantenham-se em desenvolvimento apical e não espalhem sementes no campo. Se elas permanecerem sadias, é um indicativo de que a área continua sob controle. Caso apresentem sintomas, servem como um alerta precoce para que a lavoura seja investigada com mais atenção. Permitindo a decisão de uso ou não da produção como batata-semente comercial ou própria.

Segundo o pesquisador científico José Alberto Caram, da Divisão de Pesquisa e Desenvolvimento de Fitossanidade do IAC, o objetivo não é substituir os métodos laboratoriais de diagnóstico, mas agregar uma ferramenta prática e de baixo custo ao monitoramento fitossanitário, permitindo uma tomada de decisão mais rápida no campo.

O desenvolvimento dessa estratégia ganha ainda mais importância nas condições de cultivo do Brasil. Diferentemente de países europeus, onde o inverno rigoroso reduz naturalmente a população de pulgões e outros insetos transmissores de vírus, no Brasil esses vetores permanecem ativos durante praticamente todo o ano. Essa pressão constante aumenta o risco de disseminação de viroses e exige tecnologias adaptadas à realidade da agricultura tropical.

Embora a proposta seja inovadora, as plantas indicadoras não são desconhecidas pela ciência. Há décadas elas são empregadas em laboratórios de fitovirologia para auxiliar na identificação de doenças causadas por vírus. O diferencial da pesquisa conduzida pelo IAC está justamente em adaptar esse conhecimento para uma aplicação prática no campo. “As plantas indicadoras já eram usadas para diagnóstico em laboratório. O que estamos fazendo é transformar esse conhecimento em uma ferramenta de biomonitoramento para a produção de batata-semente”, explica Caram.

A Datura metel também pode desempenhar uma segunda função. Além do biomonitoramento, a planta apresenta um mecanismo natural de antibiose que pode atuar como barreira biológica contra insetos vetores de viroses, como pulgões e moscas-brancas. Segundo Caram, após o contato com a planta, esses insetos podem rejeitá-la, interrompendo a alimentação.

SOBRE A APTA

A Diretoria de Pesquisa dos Agronegócios (APTA) é o órgão responsável por coordenar as atividades de pesquisa científica da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo. Em sua estrutura estão presentes sete Instituições de Ciência e Tecnologia, com unidades distribuídas por todas as regiões do estado: Instituto Agronômico (IAC), Instituto Biológico (IB), Instituto de Economia Agrícola (IEA), Instituto de Pesca (IP), Instituto de Tecnologia de Alimentos (ITAL), Instituto de Zootecnia (IZ) e Apta Regional.

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