Transportadoras fecham as portas enquanto mercado de caminhões registra menor volume em cinco anos

Transportadoras fecham as portas em meio à queda do mercado de caminhões ao menor volume em cinco anos

Queda de 21,1% nos emplacamentos no primeiro trimestre e encerramento de 18,7 mil empresas no semestre expõem perda de capacidade de investimento no transporte rodoviário de cargas

Transportadoras fecham as portas enquanto mercado de caminhões registra menor volume em cinco anos

O transporte rodoviário de cargas atravessa um período de forte pressão financeira, marcado pela redução do número de empresas em atividade e pela retração na compra de novos caminhões. No primeiro semestre de 2026, 18.711 transportadoras encerraram as atividades no Brasil, segundo levantamento do Serpro com base nos CNPJs da Receita Federal e nos CNAEs relacionados ao transporte rodoviário de carga. O movimento ocorre no mesmo período em que o mercado de veículos pesados registrou uma queda expressiva nos emplacamentos.

Segundo dados da Anfavea analisados pela ILOS, 21,9 mil caminhões foram emplacados no primeiro trimestre de 2026, volume 21,1% inferior ao registrado no mesmo período de 2025, quando foram 27,7 mil unidades. O resultado também foi o menor dos últimos cinco anos. O número ficou 6,7 mil caminhões abaixo do pico da série, alcançado no primeiro trimestre de 2023, com 28,6 mil unidades.

Para o presidente do Sindicato das Empresas de Transportes de Cargas e Logística de Minas Gerais (Setcemg), Antonio Luis da Silva Junior, os dois movimentos refletem a dificuldade enfrentada pelas empresas para preservar margens e realizar investimentos. “Transportadores encerrando atividade e a queda do emplacamento de caminhões são reflexos da situação econômica do país. O setor está sem capacidade de investimento e os fretes não estão remunerando adequadamente as transportadoras para que possam investir. As empresas vivem um momento muito difícil, com pressão dos embarcadores sobre os valores dos fretes e queda de produtividade”, afirma.

Juros altos dificultam renovação da frota

A retração nas compras de caminhões também interfere diretamente na capacidade de renovação da frota. Na avaliação do presidente do Setcemg, o custo do crédito é um dos principais obstáculos para que as empresas substituam veículos antigos por modelos novos. A dificuldade se soma à falta de remuneração adequada para que o investimento possa ser absorvido pela operação. “Os juros estão muito altos e o frete não oferece uma remuneração adequada para o capital investido. A transportadora também precisa ter volume de trabalho suficiente para conseguir pagar as prestações de um caminhão novo. Sem essa condição, a renovação da frota fica comprometida”, explica Antonio Luis.

A menor aquisição de veículos pode prolongar o uso de caminhões antigos, com reflexos sobre despesas de manutenção, disponibilidade dos veículos e eficiência operacional. Para as empresas, a decisão de postergar a substituição da frota deixa de ser apenas uma questão de planejamento e passa a estar relacionada à própria capacidade financeira de assumir novos compromissos.

Risco de perda de capacidade operacional

A combinação entre redução no número de empresas e baixo ritmo de renovação da frota pode ter efeitos sobre a capacidade de resposta do setor diante de uma eventual retomada da demanda. O transporte rodoviário concentra uma parcela relevante da movimentação de cargas no país e depende de uma estrutura empresarial e de veículos capaz de atender a oscilações do mercado.

O presidente do Setcemg avalia que a continuidade desse cenário pode comprometer a capacidade operacional do transporte de cargas nos próximos anos. “Se não houver renovação de frota, investimentos na atividade e uma remuneração adequada, os transportadores não terão capacidade de crescimento nem condições operacionais para acompanhar uma necessidade de aumento da demanda. Isso pode levar a um apagão logístico no futuro. É uma situação muito crítica e perigosa”, alerta.

Para reverter esse quadro, o setor defende condições econômicas que permitam às transportadoras recuperar capacidade de investimento, com fretes compatíveis com os custos da operação e acesso a crédito em condições que viabilizem a renovação dos veículos. A recuperação da capacidade de investimento será determinante para que as empresas mantenham suas operações, ampliem a frota quando necessário e tenham condições de responder ao crescimento da demanda por transporte no país.

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