Tomei a decisão mais difícil da minha carreira: aposentar a estratégia que mais me fez crescer.

Por Diego Mendes, CEO da ConstruCode
Em 2018, apresentamos ao mercado uma ideia simples: Códigos QR em obras para garantir que a versão correta de cada planta chegasse às mãos certas no canteiro. O problema era real, a solução era direta, o produto era usual e fácil de entender e o mercado respondeu. Nos anos seguintes, crescemos, chegamos a mais de 50 mil projetos gerenciados, entramos nas maiores construtoras do Brasil e ganhamos diversos prêmios. E foi exatamente nesse momento, no topo de um ciclo, que tomei a decisão que mais me custou explicar para investidores, para o time e, às vezes, até para mim mesmo: construir o próximo produto antes que o atual chegasse ao seu limite. Uma decisão puramente estratégica.
Existe uma armadilha que destrói boa parte das empresas de tecnologia que cruzam a barreira do crescimento inicial. É o instinto de proteger o produto que funcionou em vez de construir o produto que vai transformar o próximo ciclo. A lógica parece razoável: “está dando certo, não mexa.” Mas crescer sobre uma base tecnológica que já atingiu seu teto de valor sem protagonizar uma auto-obsoletagem é pedir para ser substituído por quem não tem nada a proteger. Vi isso acontecer em outros setores, vi empresas de software que foram referência por anos perderem relevância porque deixaram de se questionar. Vi startups de garagem derrubarem companhias gigantes com propostas de valor audaciosas. O sinal de alerta nunca vem de fora primeiro. É sempre interno, quando a empresa começa a defender o passado em vez de construir o futuro, a energia se dissipa no lugar errado. Despejam rios de dinheiro para copiarem features enquanto se esquecem do conceito de “time to value”, onde o mais forte sempre perde para o mais ágil.
Na ConstruCode, fizemos o movimento oposto de forma deliberada. Cada salto da nossa história foi deliberado, feito antes que qualquer crise nos obrigasse. Quando saímos do QR Code para o GED (Gerenciamento Eletrônico de Documentos), já enxergávamos que o problema maior estava no ciclo de vida da produção das plantas, e o QR Code sozinho alcançava apenas a ponta final desse processo. Quando saímos do GED para o CDE, o Common Data Environment, o passo foi maior ainda: o escopo já incluía informações combinadas, equipes sincronizadas, fluxos automatizados e rotinas inteiras facilitadas. Agora vamos dar mais um salto: estamos construindo um ecossistema orientado por inteligência artificial que armazena, distribui e coordena a informação, e também aprende com ela. Cada uma dessas transições exigiu questionar o que estava funcionando, gerou um desconforto necessário, e foi construída sobre a base da anterior, nunca apesar dela.
A McKinsey estima que a construção civil global crescerá de 13 trilhões para 22 trilhões de dólares até 2040. Ao mesmo tempo, o setor investe em tecnologia menos de um terço do que automotivo e aeroespacial aplicam. Essa diferença representa uma janela de oportunidade enorme. Uma janela que vai se fechar à medida que o capital externo acelera: segundo a própria McKinsey, uma onda de 50 bilhões de dólares já está se movendo em direção a empresas de tecnologia para construção globalmente. Quem chegou antes, com produto e base de dados, tem vantagem que dinheiro novo não compra rapidamente.
Essa decisão vai além do produto. Ela define o tipo de empresa que você quer construir. Enquanto uma ferramenta resolve um problema, um ecossistema resolve um setor. A diferença é a escala do impacto e, consequentemente, a escala da responsabilidade. Quando você decide desafiar algo maior do que o problema que já resolveu, você aceita que vai errar mais, demorar mais e se explicar mais vezes sobre por que está recomeçando enquanto o produto anterior ainda funciona. Os fundadores que mais respeitei ao longo da minha trajetória fizeram exatamente isso. Não esperaram o mercado os forçar a mudar, mudaram eles o mercado que muitas vezes ajudaram a construir, e usaram o que tinham como piso e não como teto.

A atitude de que mais me orgulho em toda a jornada empreendedora foi enxergar quando o produto que nos trouxe até aqui havia cumprido seu papel, e ter a coragem de usá-lo como base para o próximo salto. No setor de construção civil, que por décadas se acostumou a esperar que a tecnologia chegasse pronta de outros setores, as empresas que vão definir o próximo ciclo são as que estão construindo essa tecnologia de dentro, com dados de obra validados, com contexto de canteiro, com a paciência de quem sabe que transformações estruturais não acontecem em um quarter.
WeCodeTheFuture traduz o compromisso com a pergunta que define toda empresa de tecnologia: o que você está construindo agora que será capaz de ampliar o seu legado? Codificar a rotina de quem constrói significa liberar as equipes do trabalho repetitivo para que se dediquem ao que exige raciocínio, experiência e decisão. Se você não tem uma resposta para isso, agora sabe que alguém já está trabalhando nela.
Diego Mendes é CEO e fundador da ConstruCode, construtech brasileira focada em gestão de projetos e obras na construção civil. Engenheiro civil e especialista em transformação digital do setor, fundou a empresa em 2018 após identificar uma dor recorrente no mercado: a ineficiência na gestão de documentação, tarefas e comunicação nas obras. A plataforma está presente em mais de 6 mil empreendimentos no Brasil e foi eleita TOP 1 Construtech pelo Ranking Open 100 Startups por cinco anos seguidos, de 2021 a 2025.






