ENASE 2026 encerra edição histórica com foco em Inteligência Artificial, competitividade industrial e os desafios da nova realidade operacional
Último dia do evento consolida discussões urgentes sobre segurança regulatória, a corrida global por data centers, armazenamento por baterias e a modernização do planejamento elétrico frente às mudanças climáticas

O encerramento do ENASE 2026 consolidou os principais aprendizados de dois dias intensos de debates sobre os rumos do setor energético brasileiro. A síntese das discussões reforçou uma mensagem central: embora o Brasil possua recursos, tecnologia e capital para liderar a transição energética global, o país precisa avançar urgentemente em segurança regulatória, planejamento integrado e velocidade de implementação para transformar esse potencial em desenvolvimento econômico concreto. O evento de fechamento, que contou com a participação de Amanda Fernandes (Head de Estudos Econômicos de Transmissão e Distribuição da PSR) e Camila Ramos (CEO e Fundadora da CELA), evidenciou que o mercado se movimenta em ritmo acelerado e exige respostas à altura das novas transformações tecnológicas.

A abertura dos debates do último dia trouxe à tona o futuro da demanda de energia no país, fortemente pautado pela digitalização da economia, pela inteligência artificial (IA) e pela atração de novos investimentos industriais. Durante o “Painel dos CEOs”, moderado por Maurício Godoi (CanalEnergia), os executivos Rui Chammas (ISA Energia), Adriana Waltrick (SPIC), Lucas Witzler (Ultragaz) e Fabio Bortoluzo (Atlas Renewable Energy) destacaram que o Brasil reúne condições únicas para atrair data centers e projetos ligados à eletrificação. Contudo, os líderes alertaram que a corrida global por esses investimentos aumentou a concorrência entre as nações, tornando fatores como tributação, infraestrutura de transmissão, financiamento e estabilidade regulatória decisivos para que o país aproveite essa oportunidade histórica, já que a oferta de energia competitiva, isoladamente, não basta.

Essa busca por competitividade também ancorou as discussões sobre a reindustrialização verde, onde Clauber Leite (Instituto E+) coordenou um debate com Antonio Carlos Vilela (FIRJAN), Lorena Melo Silva Perim (MME), Mariana Amim (ANACE) e Rodrigo Sauaia (ABSOLAR). O grupo defendeu o aprimoramento dos sinais de preço, o avanço na solução dos cortes de geração renovável (*curtailment*) e uma maior integração entre o planejamento energético e a política industrial de longo prazo. Como alternativa complementar para garantir a eficiência e a sustentabilidade, o painel focado em recuperação energética e resíduos — liderado por Hélène Plaisance (EREN), Heloisa Borges (EPE), Yuri Schmitke (ABREN) e Francisco Olivati (Interunion) — demonstrou o potencial do biogás, biometano e das tecnologias *Waste-to-Energy* (WtE) em fornecer energia firme e previsível a partir do lixo urbano, impulsionando a economia circular.

Para dar suporte a essa matriz cada vez mais renovável e dinâmica, a flexibilidade do sistema despontou como um requisito essencial para a segurança energética nacional. Sob a mediação de Daniel Carneiro (Câmara Falcão & Gava Sociedade de Advogados), os especialistas Bruno Monte (CPFL), Wilson Assofra (Santander), Markus Vlasits (ABSAE) e Rui Altieri (APINE) mostraram que os sistemas de armazenamento por baterias (BESS) evoluíram de uma promessa tecnológica para uma infraestrutura estratégica. O desafio agora reside na evolução dos mecanismos regulatórios que permitam a correta precificação e a valoração real da flexibilidade entregue pelas baterias à rede. Pelo lado do consumo, o debate sobre resposta da demanda — que reuniu Lorena Borges (LB Energy Advisory), Gustavo Ponte (EPE), Camilo Reis (AXIA Energia), Gustavo Checcuchi (Braskem/ABRACE) e Tatiane Moraes Pestana Cortes (ONS) — propôs uma mudança de visão, posicionando o consumidor e os agentes agregadores como recursos operacionais ativos capazes de deslocar cargas em horários críticos e reduzir a necessidade de investimentos em geração de ponta.
A sofisticação do setor elétrico exige, em contrapartida, redes muito mais conectadas e preparadas para enfrentar os impactos de eventos climáticos extremos, como secas e enchentes severas. Analisando o legado da COP30, o subsecretário Thiago Barral (Ministério da Fazenda), ao lado de Lucas Costamilan (CEBDS), Alexandre Uhlig (Instituto Acende Brasil) e Ricardo Cyrino (Evoltz), com mediação de Laiz Hérida (HL Soluções), reforçou a necessidade de adaptar os ativos existentes e harmonizar marcos regulatórios, como o mercado de carbono. Essa infraestrutura resiliente ganha inteligência por meio da transformação digital, tema debatido por Maria Tereza Vellano (Vellano Smart Energy), Ricardo Brandão (ABRADEE), João Carlos de Souza Marques (Schneider Electric), Guilherme Sanz (Siemens) e Zilda Costa (ABGD). Os especialistas mostraram que o uso de *smart grids*, IoT e Gêmeos Digitais associados à IA permite processar o grande volume de dados gerados pelas redes para antecipar falhas e otimizar a manutenção em cenários de estresse climático.
Toda essa modernização tecnológica e descentralização do Sistema Interligado Nacional (SIN) impõe novos e complexos desafios para quem planeja e opera a rede em tempo real. No encerramento técnico do evento, o painel mediado por José Antonio Sorge (Ágora Energia), com a participação de Natália Caldeira (ABEEólica), Luísa Moreira (EDF Power Solutions), Victor Protázio da Silva (MME), Davi Rabelo (ANEEL) e Maria Cândida Abib Lima (ONS), discutiu o desvio entre a programação diária e a realidade operacional do sistema frente à intermitência das fontes eólica e solar. Os participantes concluíram que mitigar essas incertezas exige modelos matemáticos e computacionais mais modernos, maior observabilidade e uma transição colaborativa que transforme riscos desconhecidos em variáveis precificáveis, assegurando a confiança dos investidores.
Por fim, o fórum destacou que o sucesso de todas as soluções desenhadas ao longo dos debates depende fundamentalmente do capital humano. Em entrevista conduzida por Gabriela Desiré (Two Square), as especialistas Marina Pimenta Gazeti Scartozzoni (Vibra Energia/COMERC), Eduardo Rossi (CCEE) e Priscila Monteiro (Michael Page) alertaram que muitas das funções que ganharão relevância nos próximos anos ainda estão em construção. Diante disso, desenvolver talentos, estreitar os laços entre empresas e universidades e promover a requalificação contínua dos trabalhadores tradicionais da indústria serão ações tão estratégicas quanto a própria expansão física da infraestrutura energética do Brasil.
Fotos:Tulio Thome






