Terras raras: plenária destaca potencial do Brasil na produção sustentável de minerais críticos
Em debate realizado na ABM Week 10, empresários, pesquisadores e gestores públicos destacam o cenário único da produção nacional para produção de terras raras sustentáveis. Desafios como agregar valor ao material, avançar em itens fabricados, proteger o mercado brasileiro e conseguir investimentos foram discutidos

Fonte: Assessoria ABM
As mudanças geopolíticas e o avanço da transição energética colocaram as terras raras no centro do debate público e abriram uma oportunidade única para que o Brasil oferte minerais críticos refinados para compradores estrangeiros com uma pegada ambiental reduzida. Esse foi um dos principais fatores apontados durante a Plenária de Mineração e Metalurgia com o tema “Terras raras: oportunidades e desafios para o Brasil”, realizada no segundo dia da ABM Week 10, em 9 de setembro.
“O Brasil vai se posicionar como o país com as minas mais sustentáveis do mundo em termos de terras raras no prazo de dois anos”, afirmou Klaus Petersen, geólogo e membro da Associação de Minerais Críticos (AMC), durante sua fala na plenária. De acordo com o especialista, o país tem capacidade de oferecer previsibilidade para investidores, desde que defina detalhes do licenciamento ambiental.
Extração sustentável de terras raras
Petersen explica: “o maior problema não é que os minerais críticos sejam raros, o raro é separá-los, além disso, a extração é raramente viável economicamente”. De acordo com o geólogo, para agregar valor às terras raras, geralmente encontradas em rocha dura, é necessário “desmontar e dissolver o mineral, que é um composto muito estável. Para isso, se usa ácido e calor, o que significa custo financeiro e ambiental”.
O Brasil, além de possuir terras raras em rocha dura, também conta com outra alternativa: a extração em argila. “Com argila o custo baixa, porque o mineral já foi destruído pelo intemperismo”, afirma Klaus. O membro da AMC esclarece que a ação da natureza quebra a rocha e faz com que os minerais críticos sejam dissolvidos, podendo ser separados com adição de um sal na solução, o que representa um impacto ambiental significativamente menor.
“Na argila, não precisamos expor a calor, britar ou moer a rocha para obter os minerais críticos. O processo para separar esses elementos não tem problemas residuais, como odor, e o custo é reduzido, enquanto as minas que operam em rocha dura quase perdem a lucratividade”, afirma.
Avanço na cadeia produtiva
A partir das terras raras é possível produzir ímãs que integram itens essenciais no cenário atual. “Carros elétricos, geradores eólicos e máquinas de ressonância magnética, por exemplo, usam ímãs de terras raras. Ao contrário dos ímãs de ferrite, que perdem a propriedade com calor e o tempo, os ímãs de terras raras exigem uma massa menor para ter força e possuem maior resistência a calor”, define Klaus.
O professor titular da Escola Politécnica da USP, Fernando Landgraf, defende que o Brasil não apenas extraia terras raras e comercialize o minério bruto, mas avance na cadeia produtiva. “Existem cinco fábricas que produzem imãs com minerais críticos no mundo. É arriscado parar na extração e separação, sem partir para processos que agregam mais valor, já que, como há poucos compradores de terras raras, há risco de oligopólio, com detenção de tecnologias”, resume.
Fernando explica que o custo da separação das terras raras é menor do que o de extração, mas ainda há obstáculos para avançar neste setor: “existe um desafio de se desenvolver os solventes para a extração, hoje em dia só os chineses fazem isso”, afirma.
A produção de ímãs, próximo passo na cadeia que já é estudado pela empresa brasileira MagBras, em Lagoa Santa, também tem dificuldades. “Hoje, não se compra mais máquinas para fazer ímãs de terras raras, uma vez que a China encerrou as vendas. Isso será um problema, mas não insolúvel. Se o ocidente quer produzir ímãs, terá que criar empresas de fornos e prensas para criar esses produtos”, resume o professor.
A visão de que o Brasil precisa refinar terras raras e produzir ímãs com os minerais críticos é compartilhada por Erwin Franieck, secretário da Rede Colaborativa MiBi (Made in Brasil Integrado), criadora da MagBras. Segundo ele, é necessário “desenvolver a cadeia do mineral até o material”, para isso, ele diz que seria necessário inteligência de mercado, integração na cadeia e fazer alianças.
O diferencial que poderia dar vantagem para o Brasil, na visão de Erwin, seria a produção sustentável. “Para competir com a China, não podemos nos basear apenas nos custos”, ele afirma. “Gerar sustentabilidade é o tema central no Brasil, nós somos o melhor país do mundo nessa condição”, ressalta. O palestrante cita a matriz energética limpa e a extração em argila como fatores que posicionam o Brasil como melhor alternativa para compradores que buscam minerais críticos produzidos com sustentabilidade.
Viabilizando empresas nacionais
Flávio Moraes da Mota, chefe do Departamento de Indústrias de Base e Extrativa do BNDES, explica que existem obstáculos em apoiar empresas no setor. “Estávamos acostumados a lidar com grandes empresas, com grandes projetos. Agora, o cenário mudou e lidamos com junior companies, que são empresas pré-operacionais, ou seja, não tem balanço, nem operação e receita”, explica.
O membro do BNDES conta que este tipo de empresa fez com que o banco criasse novos instrumentos financeiros para viabilizar o financiamento. “Não tínhamos como apoiar essas empresas via dívida, essa ferramenta pressupõe que a empresa tenha uma operação, consiga demonstrar capacidade de pagamento e impõe que se ofereçam garantias”, sintetiza.
Em resposta, o BNDES lançou uma parceria com a Vale para criar um Fundo de Minerais Críticos e Estratégicos, com o objetivo de apoiar junior companies. A meta é captar R$ 2 bilhões em investimento.
“Lançamos também uma chamada pública de mercado, para que as empresas apresentassem seus planos de negócios relacionados à transformação mineral, não apenas na mineração, mas também de transformação, passando pelo desenvolvimento de materiais estratégicos até os seus produtos manufaturados”, conta Flávio
De acordo com o executivo, 56 planos de negócio foram recebidos e 12 destes estão em fase avançada. O total de investimento requisitado pelos planos em fase avançada é de R$ 9 bilhões em financiamento.
Sobre a 10ª ABM Week
Realizada entre os dias 8 e 10 de setembro, no Pro Magno Centro de Eventos, em São Paulo, a ABM Week é o principal evento técnico-científico e empresarial da América Latina voltado aos setores de metalurgia, materiais e mineração. A programação reúne congressos, seminários, simpósios, mesas-redondas, painéis, sessões técnicas e espaços dedicados à inovação, conectando empresas, academia e especialistas para discutir os principais desafios e tendências da indústria.
A 10ª edição da ABM Week tem a Gerdau como anfitriã e conta com o patrocínio das seguintes empresas: ArcelorMittal, DME Engenharia, Primetals, SMS group, Ternium, Usiminas, Vale, Bruker, Shinagawa, ACRE, Aperam, Aplan, Carboox, Danieli, HWI – a member of Calderys, Ibar, Tecnosulfur, Reframax, RHI Magnesita, Vesuvius, Aldak, Autron, AVB, Beda/Lechler, BRC, BRX Sistemas, Clariant, Contemp, Danfoss, EnergyTech, GE Vernova, GMI, Harsco, Jenike & Johanson, JK Global, Kaefer RIP, Kuttner, Lhoist, Maud Group, Nalco Water, NSK, Nouryon, Phoenix Global, Polytec, Ramon, Yantai Refra, Rimac, Russula, Tractian, Vika Controls, ABB, AçoKorte, Atomat, Belge, Camet, Cemi, CISDI, Cordstrap, Dan Carbon, Data Engenharia, Delta Ducon, Densit/Densyx, Direxa, Durag, Eirich, Evcomx, Fluke, Fosbel, Furnace Solutions, Gervasi, Hastec, Heidenhain, Heraeus, Herkules Latin America, IMS, Industrial Scientific, Instron, Intelbras, IRF South America, JT & Partners, KMD, Koppern, Lumar Metals, Malvern Panalytical, Rijeza, Ringspann, Sage, São Joaquim Laminação, SMS Mill Services, SNF, Solenis, Spraying Systems, Suncoke Energy, Terresis MAGNA, TMEIC, Togni, Utis, Veolia, Vixteam, Waelzholz Brasmetal e Weir.






