Mais do que conectar cidades, ponte de Guaratuba liga meio ambiente e cidadania
Revestimento da ponte com asfalto ecológico inclui na sua composição borracha extraída de pneus velhos com mão de obra prisional.

Em fase final de obras, a ponte de Guaratuba que inaugura no próximo dia 29/04, no litoral do Paraná, está sendo revestida com o chamado asfalto-borracha ou asfalto ecológico, pavimento que associa em seu processo produtivo preservação ambiental e desenvolvimento humano.
O asfalto-borracha contém, em média, 15% de pneu velho triturado em sua composição. De acordo com a empresa fornecedora desse pavimento para a ponte (Greca Asfaltos), a obra deverá consumir cerca de 600 toneladas do material, são 23 mil pneus que ganham uma aplicação ambientalmente adequada.
Além disso, a principal fornecedora de borracha de pneu velho para asfalto no Paraná (Strasse) funciona dentro da Colônia Penal Agrícola de Piraquara e utiliza mão de obra de detentos do regime semiaberto.
Para os setores envolvidos nessa logística reversa de pneumáticos, o modelo adotado no Paraná associando proteção ambiental, tecnologia em pavimentação e ressocialização do preso, pode ser considerado referência nacional.

“A ponte de Guaratuba será um grande ícone do desenvolvimento sustentável no Paraná, provando a efetividade do ciclo reverso do pneu no estado”, avalia o empresário Joel Custodio, proprietário da recicladora Strasse e membro da Associação Brasileira das Empresas de Reciclagem de Pneus Inservíveis (Abrerpi).
Dados oficiais do IBAMA, no Relatório de Pneumáticos de 2025 (referente ao exercício de 2024), indicam que o Brasil atingiu 94,92% de cumprimento da meta nacional de destinação de pneus inservíveis, com mais de 784 mil toneladas recicladas. O pneu importado representa cerca de 60% do mercado de reposição no Brasil.
“É um mercado que teria um grande potencial poluidor, mas que soube se organizar, criar mecanismos de estímulo à reciclagem e hoje praticamente alcança a sustentabilidade”, avalia o presidente da Associação Brasileira dos Importadores e Distribuidores de Pneus (Abidip), Ricardo Alípio.
Segundo ele, a imagem que se tinha do setor há 30 anos, com pneus atirados na natureza acumulando água e contribuindo para proliferação de doenças, mudou completamente. “O pneu velho se tornou um ativo econômico, a indústria recicladora ganhou escala e prova a sua capacidade ao fornecer insumo para uma mega construção, como a ponte de Guaratuba, revelando também o aspecto social e ambiental importante dessa obra”.
A ponte terá 1.240 metros de extensão, com quatro faixas de tráfego, duas faixas de segurança em cada sentido, calçadas com ciclovia e guarda-corpos. Considerando ainda os acessos terrestres nas duas entradas da ponte, a obra vai abranger pouco mais de 3 quilômetros com 70 mil m2 de área de pavimentada. Além de todo o aspecto socioambiental, estudos indicam que esse tipo de pavimento pode ser até duas vezes mais resistente a rachaduras que o tradicional, ter vida útil 50% maior e diminuir os ruídos pela metade.
Disciplina
A Resolução CONAMA nº 416/2009 estabelece que fabricantes e importadores são obrigados a coletar e dar destinação ambientalmente adequada aos pneus inservíveis.
Esse trabalho é feito pelas recicladoras que vendem os créditos correspondentes à quantidade de pneu processada para fabricantes e importadores poderem comprovar ao Ibama a destinação ambiental na mesma proporção que colocaram em circulação.
O associativismo é a fórmula encontrada pelos empresários para dar efetividade à lei e disciplinar esse mercado. A associação de empresas de reciclagem – Abrerpi – faz auditorias entre as recicladoras mantendo associadas apenas empresas que comprovam a capacidade de produção correspondente ao volume de créditos que emitem.






